12 de abr de 2009

Eu quero


Eu quero à doce luz dos vespertinos pálidos

Lançar-me, apaixonado, entre as sombras das matas

- Berços feitos de flor e de carvalhos cálidos

Onde a Poesia dorme, aos cantos das cascatas...

Eu quero aí viver - o meu viver funéreo,

Eu quero aí chorar - os tristes prantos meus...

E envolto o coração nas sombras do mistério,

Sentir minh'alma erguer-se entre a floresta de Deus!

Eu quero, da ingazeira erguida aos galhos úmidos,

Ouvir os cantos virgens da agreste patativa...

Da natureza eu quero, nos grandes seios túmidos,

Beber a Calma, o Bem, a Crença - ardente a altiva.

Eu quero, eu quero ouvir o esbravejar das águas

Das asp'ras cachoeiras que irrompem do sertão...

E a minh'alma, cansada ao peso atroz das mágoas,

Silente adormecer no colo da so'idão...

Euclides da Cunha

[1883]

Um comentário:

  1. Reproduzi este poema no meu blog hoje que passa o centenário da morte de Euclides da Cunha

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