23 de nov de 2012

MIGUEL TORGA






Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo.
Os homens só me deram tristezas. Ou eu nunca os 
entendi, ou eles nunca se entenderam. (...) A terra, 
com os seus vestidos e as suas pregas, essa foi sempre
generosa. (...) Vivo a natureza integrado nela, de 
tal modo que chego a sentir-me, em certas ocasiões,
pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. Nenhum outro 
espectáculo me dá semelhante plenitude e cria no
meu espírito um sentido tão acabado do perfeito 
e do eterno...
 
Miguel Torga, in Diário II
 

22 de nov de 2012

NA ILHA POR VEZES HABITADA






Na ilha por vezes habitada do que somos,
há noites, manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente
e entra em nós uma grande serenidade,
e dizem-se as palavras que a significam.

Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos. Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres,
com a paz e o sorriso de quem se reconhece
e viajou à roda do mundo infatigável,
porque mordeu a alma até aos ossos dela.

Libertemos devagar a terra
onde acontecem milagres como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

José Saramago,
in Provavelmente Alegria