7 de dez de 2009

TUDO FICA SEM EIRA NEM BEIRA





A coragem se desvanece.
O arco-íris não mais existe!
Os dias se tornaram cinza.
O medo cresce,
Enquanto o amor,
Que era belo na primavera,
Recolheu-se ao frio do inverno.

A tristeza tolda a vidraça,
E tudo fica sem eira nem beira.
O coração se estilhaça,
Feito fogo que crepita na lareira.

Entre o céu e o inferno,
Digladiam-se demônios,
Invólucros da dor que espezinha,
Fazendo-me pequena,
Indefesa e tão sozinha.

(Genaura Tormin)


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"IBA TOCANDO MI FLAUTA"





Iba tocando mi flauta
a lo largo de la orilla;
y la orilla era un reguero
de amarillas margaritas.

El campo cristaleaba
tras el temblor de la brisa;
para escucharme mejor
el agua se detenía.

Notas van y notas vienen,
la tarde fragante y lírica
iba, a compás de mi música,
dorando sus fantasías,

y a mi alrededor volaba,
en el agua y en la brisa,
un enjambre doble de
mariposas amarillas.

La ladera era de miel,
de oro encendido la viña,
de oro vago el raso leve
del jaral de flores níveas;

allá donde el claro arroyo
da en el río, se entreabría
un ocaso de esplendores
sobre el agua vespertina...

Mi flauta con sol lloraba
a lo largo de la orilla;
atrás quedaba un reguero
de amarillas margaritas...


Juan Ramón Jiménez



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"SONHO"





Da tua branca e solitária ermida
Por caminhos de céu que a lua esmalta-
Desces –banhada dessa luz cobalta-
O linho d’asa abrindo sobre a vida.

Nada,teu passo calmo,sobre-salta
E quando a mágoa as almas intimida
Das ilusões,a turba renascida,
Em rondas espalha pela noite alta.

E a claridade que se faz é tanta
Que logo a terra fica cheia dessa
Sonora e estranha luz que alegra e canta.

E iluminada de um luar de outono
A alma feliz e impávida,atravessa
A vasta e longa escuridão do sono.


Mário Pederneiras
Rondas Noturnas-1.906



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Acalentar





Se não fosse a poesia - amiga e confidente a me escutar,
como agora, quando a noite cai,
e eu, aqui ,sozinha,
lembrando de ti,
me lamentando demais...

Se não fosse a poesia - fiel companheira a me escutar,
com certeza chegariam aos teus ouvidos,
os meus gritos de tristeza,
que me arremessam ao cais...

Um cais, sem navios, sem velas, sem ventos...
um cais só de murmúrios, das águas que vem e que vão,
num in incessar constante
molhando a areia,
me atirando ao chão...

Regina Azenha




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INFINITO PRESENTE


No movimento veloz
de nossa viagem,
embala-nos a ilusão
da fuga do tempo.

Poeira esparsa no vento,
apenas passamos nós.
O tempo é mar que se alarga
num infinito presente.


Helena Kolody
in Viagem no Espelho




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"Quem Pode Impedir a Primavera"




Quem pode impedir a Primavera
Se as árvores se vão cobrir de flores
E o homem se sentiu sorrir à Vida?
Quem pode impedir a surda guerra
Que vai nos campos deslocando as pedras
- Mudas comparsas no ritmo das estações -
E da terra inerte ergueu milhares de lanças
Que a tremer avançam, cintilantes, para o limite
Em que a luz aquosa se derrama
Como um mar infinito onde o arado
Abre caminho misterioso à seiva inquieta!
Quem pode impedir a Primavera
Se estamos em Maio e uma ternura
Nos faz abrir a porta aos viandantes
E o amor se abriga em cada um dos nossos gestos.

Quem?...
Se os sonhos maus do Inverno dão lugar à Primavera!



Rui Cinatti
de Nós não somos deste mundo, 1941




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Canção da falsa adormecida




Se te pareço ausente, não creias:
Hora a hora o meu amor agarra-se aos teus braços,
Hora a hora o meu desejo revolve estes escombros
E escorrem dos meus olhos mais promessas.

Não acredites neste breve sono;
Não dês valor maior ao meu silêncio;
E se leres recados numa folha branca,
Não creias também: é preciso encostar
Teus lábios em meus lábios para ouvir.

Nem acredites se pensas que te falo:
Palavras
São o meu jeito mais secreto de calar.

(Lya Luft)



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The Snow Man





One must have a mind of winter
To regard the frost and the boughs
Of the pine-trees crusted with snow;

And have been cold a long time
To behold the junipers shagged with ice,
The spruces rough in the distant glitter

Of the January sun; and not to think
Of any misery in the sound of the wind,
In the sound of a few leaves,

Which is the sound of the land
Full of the same wind
That is blowing in the same bare place

For the listener, who listens in the snow,
And, nothing himself, beholds
Nothing that is not there and the nothing that is.


Wallace Stevens
(1879-1955- Estados Unidos)



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