18 de nov de 2009

O Amor Antigo


O amor antigo vive de si mesmo,
Não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
Mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
Feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
E por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
Aquilo que foi grande e deslumbrante,
O antigo amor, porém, nunca fenece
E a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
E resplandece no seu canto obscuro,
Tanto mais velho quanto mais amor.

Carlos Drummond de Andrade



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Alma de Borboleta


Há certas almas
como as borboletas,
cuja fragilidade de asas
não resiste ao mais leve contato,
que deixam ficar pedaços
pelos dedos que as tocam.
Em seu vôo de ideal,
deslumbram olhos,
atraem as vistas:
perseguem-nas,
alcançam-nas,
detem-nas,
mas, quase sempre,
por saciedade
ou piedade,
libertam-nas outra vez.
Elas, porém, não voam como dantes,
ficam vazias de si mesmas,
cheias de desalento...
Almas e borboletas,
não fosse a tentação das cousas rasas;
- o amor de néctar,
- o néctar do amor,
e pairaríamos nos cimos
seduzindo do alto,
admirando de longe!...

Gilka Machado



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arte de mim...

Tela de John Atkinson

Eu queria tocar aquele
crepúsculo…
Eu pensava ser
alguma parte da
minha solidão perdida
em algum recanto triste...
Eu só queria trazê-lo
de volta ao meu peito,
enquanto o admirava entremeio
lágrimas de uma saudade
infinda...

(Cida Luz)



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O ENGANO


Sou tua, Deus sabe porque, já que compreendo
Que haverás de abandonar-me, friamente, amanhã,
E que embaixo dos meus olhos, te encanto
Outro encanto o desejo, porém não me defendo.

Espero que isto um dia qualquer se conclua,
Pois intuo, ao instante, o que pensas ou queiras
Com voz indiferente te falo de outras mulheres
E até ensaio o elogio de alguma que foi tua.

Porém tu sabes menos do que eu, e algo orgulhoso
De que te pertence, em teu jogo enganoso
Persistes, com ar de ator dono do papel.

Eu te olho calada com meu doce sorriso,
E quando te entusiasmas, penso: não tenhas pressa
Não és tu o que me engana, quem me engana é meu sonho.

(Alfonsina Storni)



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Juramento



Eu juro pelo mal que me fizeram
pela revolta que me açula o brio;
pelas angústias que em meu peito geram
cataclismas fatais de mar bravio...

Eu juro pela paz que me negaram,
pelos desejos bons que sempre tive,
pelos espinhos que me acompanharam,
pela tristeza que comigo vive;

Eu juro pelo amor - jamais avaro,
que semeando eu andei pelo caminho;
pela glória que me custou tão caro,
e pelo meu excesso de carinho...

Por esse céu de inverno triste e escuro
e essas folhas rolando pelas ruas,
por tudo o que me faz sofrer, eu juro
que estou morrendo de saudades tuas.

Yde Schloenbach Blumenschein

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'SEGUNDA ROSA DO ORIENTE'



Não vejo o dia de chegar o tempo
em que de rosas seja toda espera
como nos dias em que fico atento
e invento rosas para a primavera.

Não há deleites a não ser o alento
de ver o tempo regressar com ela
da doce esfera do contentamento
ao venturoso amor que regenera.

O amor da rosa que virá semente
do meu jardim secreto do oriente
para os canteiros rústicos do mar.

Talvez a vida seja o mar de rosas
que a despeito das vias arenosas
não se ferem nas pedras do luar.


Afonso Estebanez



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'A ROSA SE DESNUDA'



'A ROSA SE DESNUDA'

(uma resposta à Segunda Rosa do Oriente)

Não há no tempo a poção de magia,
que traga à rosa o seu primeiro encanto.
Foi-se-lhe a vida... Jaz em agonia,
por não mais ter a voz do próprio canto.

A primavera... Deus, que nostalgia...
Que padecer, que dor... É tanto o pranto...
Onde as sementes? Rosa tão vazia...
Rosa desnuda de cor e acalanto!

Misericórdia, céus, ouve-me a prece,
todo o esplendor da rosa, em mim, fenece...
E o desespero é qual o mar... Crescente.

É lua plena, de paixão e sangue...
É rosa morta, de tristeza, exangue...
Buscando as sendas do Grande Oriente.


- Sarai Jahwel -




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16 de nov de 2009

VEIO UM TORPOR E ME SELOU A MENTE



Veio um torpor e me selou a mente;
Sem temores humanos,
Pareceu-me que ela era indiferente
À passagem dos anos.

Agora não se move, a força é gasta;
Não houve, enxerga ou canta;
A rotação terrestre a rola e arrasta
Com rocha, e pedra, e planta.


William Wordsworth
in Poesia Selecionada



WILLIAM WORDSWORTH

Poeta britânico nascido em Cockermouth, Cumberland, norte da Inglaterra, em 7 de abril de 17 e falecido em 23 de abril de 18. Foi um dos primeiros românticos ingleses, ao lado de Samuel Taylor Coleridge (1772-1834) e Robert Southey (1774-1843).
O segundo dos cinco filhos de John Wordsworth, e irmão da também poeta Dorothy Wordsworth. Órfão de mãe (1778) foi internado pelo pai na Hawkshead Grammar School, onde formou sua educação básica e média.

Apoiado pelos parentes maternos, entrou no St John's College, em Cambridge (1787) e viajou pelo continente (17-1792), especialmente França, Suíça e Itália, e manteve estreitos contatos com os revolucionários franceses. Apaixonou-se (1791) pela francesa Annette Vallon, e (1792) e juntos tiveram Caroline.

Por causa das tensões políticas entre França e Inglaterra, o casamento não pode ser realizado e ele voltou sozinho ao seu país. Escreveu It is a beauteous evening, calm and free (1792) em homenagem as duas francesas de seu coração que o reino de terror republicano separou e, assim, ele não pode revê-las por vários anos. Graduou-se com distinção (1793) e fixou residência em sua terra natal, Lake District, no norte da Inglaterra, onde havia nascido, e passou a se dedicar à poesia.

Recebeu uma herança de Raisley Calvert (1795), o que lhe permitiu viver dedicando-se exclusivamente a produção literária. Conheceu o também poeta Samuel Taylor Coleridge, em Somerset, e logo desenvolveram uma sólida amizade.
Mudou-se com a irmã Dorothy (1797) para Alfoxton House, Somerset, onde ele, Dorothy e Coleridge, passaram a trabalhar juntos. Em seguida (1798) viajou com a irmã e Coleridge para a Alemanha, onde tomou contato com a incipiente poesia romântica.

O trio então publicou Lyrical Ballads (1798), um dos marcos iniciais do romantismo inglês. Voltou a morar em Lake District e, em seguida, escreveu The Prelude (1799-15), longo poema autobiográfico sobre sua infância, só publicado postumamente por sua viúva.

Depois do Peace of Amiens novamente pode viajar à França (12) e junto com sua agora inseparável irmã, Dorothy, visitaram Annette e Caroline, para as quais garantiu a assistência devida. Na volta casou-se (13) com uma amiga de infância, Mary Hutchinson, com quem teria cinco filhos, e Dorothy continuou a morar com o casal.

Apegado à natureza, conservador e anglicano, à linguagem coloquial e aos temas simples, entre seus livros destacara-se Poems, 2 vol. (17), The Excursion (1814),
The River Duddon (18), Ecclesiastical Sonnets (1822), uma coleção de 2 sonetos em homenagem à Igreja Anglicana.

Recebeu muitas homenagens acadêmicas e oficiais e morreu em Grasmere, Westmorland, aos anos, e foi enterrado na igreja de St. Oswald's, em Grasmere.

Sua importante geração foi logo obscurecida pela brilhante geração de poetas românticos ingleses seguinte, entre eles Percy Bysshe Shelley (1792-1822) e John Keats (1795-1821).


Dados:Prf. Carlos Fernandes UFCG


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