15 de abr de 2009

Do amor que eu tive

Tela por Maria Sherbinina

Do amor que eu tive
(Genaura Tormin)

Quando a saudade invadir teu peito,
Saias ao desalento do tempo,
Numa noite fria.

Parceira,
Terás a lua medrosa
A passear no céu,
A carícia do vento
A beijar-te o rosto
Ainda marcado
Pelos beijos meus.

No silêncio da noite
Ouvirás sussurros.
Não te assustes!
Sou eu!

Estarei no lamento da cotovia,
Na tristeza da cascata,
No chilchear de aves notívagas,
Para recordares
Do grande amor que te ofertei um dia.

Ária ao violão

Tela: Delapoer downing


Que sonâmbula campânula

embala o íncola na ínsula

campanulando?


Cantagalo cantagálico

no áulico tez gaulesa

cantagalando.


Só, na sombra solitária

estrelinha latejante

é chama, é flor, e madruga

num rio que ri ou geme,

campanulando.


Sobre a memória madura

a cálida, a alva aurora

desce doce se incorpando,

campanulando.


Alphonsus de Guimaraens Filho

In Antologia Poética, 1963

Quando eu disser adeus...

Tela: George Francis Joseph


Quando eu disser adeus, amor, não diga
adeus também, mas sim um "até breve";
para que aquele que se afasta leve
uma esperança ao menos na fadiga

da grande, inconsolável despedida...
Quando eu disser adeus, amor, segrede
um "até mais" que ainda ilumine a vida
que no arquejo final vacila e cede.

Quando eu disser adeus, quando eu disser
adeus, mas um adeus já derradeiro,
que a sua voz me possa convencer

de que apenas eu parti primeiro,
que em breve irá, que nunca outra mulher
amou de amor mais puro e verdadeiro.


Alphonsus de Guimaraens Filho

Alphonsus de Guimaraens Filho



Alphonsus Henriques de Guimarães Filho formou-se bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerais, em Belo Horizonte, em 1940. No mesmo ano foi publicado seu primeiro livro de poesia, Lume de Estrelas, pelo qual recebeu o Prêmio de Literatura da Fundação Graça Aranha e Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras. Na época, trabalhava na Rádio Inconfidência, serviço de Rádio-Difusão do Estado. Em 1946 publicou Poesias; seguiram-se A Cidade do Sul (1948), Poemas Reunidos, 1935/1960 (1960), Antologia Poética (1963). Em 1962 foi eleito membro da Academia Marianense de Letras. Em 1974, conquistou o Prêmio Luísa Cláudio de Sousa, pelo livro Absurda Fábula (1973). Em 1985, ganhou o Prêmio Jabuti de Poesia, pelo livro Nó (1984). A obra de Alphonsus de Guimaraens Filho é situada pela crítica como integrante da terceira geração do Modernismo.


NASCIMENTO

1918 - Mariana MG - 3 de junho

LOCAIS DE VIDA/VIAGENS

1918/1923 - Mariana MG
1923/1955 - Belo Horizonte MG
1955/1961 - Rio de Janeiro RJ
1961/1972 - Brasília DF
1972 - Rio de Janeiro RJ


VIDA FAMILIAR

Filiação: Alphonsus de Guimaraens, poeta, e Zenaide Silvina de Guimaraens
1921 - Mariana MG - 15 de julho morte do pai
1943 - Rio de Janeiro RJ - Casamento com Hymirene de Souza Papi
1944 - Belo Horizonte MG - Morte do irmão João Alphonsus, escritor
1944 - Belo Horizonte MG - Nascimento do filho João Henriques
1948 - Belo Horizonte MG - Nascimento do filho Luiz Alphonsus, pintor
1953 - Belo Horizonte MG - Nascimento da filha Dinah Tereza


FORMAÇÃO

1926/1929 - Belo Horizonte MG - Curso primário no Grupo Escolar Barão do Rio Branco
1930/1934 - Belo Horizonte MG - Curso ginasial no Ginásio Mineiro
1936/1940 - Belo Horizonte MG - Curso de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerais


ATIVIDADES LITERÁRIAS/CULTURAIS

1937/1946 - Belo Horizonte MG - Trabalho na Rádio Inconfidência (Serviço de Rádio-Difusão do Estado)
1940 - Belo Horizonte MG - Publicação de Lume de Estrelas, primeiro livro de poesia
1941 - Belo Horizonte MG - Reingressa no jornalismo no jornal católico O Diário
1955/1974 - Organizador de antologias de poetas como Antero de Quental, Alphonsus de Guimaraens, Augusto Frederico Schmidt e Gonçalves Dias


HOMENAGENS/TÍTULOS/PRÊMIOS

1941 - Rio de Janeiro RJ - Prêmio de Literatura da Fundação Graça Aranha e Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras, pelo livro Lume de Estrelas

1951 - Prêmio Manuel Bandeira, pelo livro O Irmão, concedido pelo Jornal de Letras

1953 - Belo Horizonte MG - Prêmio de Poesia Cidade de Belo Horizonte, pelo livro O Mito e o Criador, concedido pela Prefeitura

1962 - Mariana MG - Eleito membro da Academia Marianense de Letras

1974 - Rio de Janeiro RJ - Prêmio Luísa Cláudio de Sousa, pelo livro Absurda Fábula, concedido pelo Pen Clube do Brasil

1976 - Rio de Janeiro RJ - Decreto denominando Lume de Estrelas uma rua no bairro do Méier

1985 - São Paulo SP - Prêmio Jabuti de Poesia, pelo livro Nó, concedido pela Câmara Brasileira do Livro


MOVIMENTOS LITERÁRIOS

1945/1962 - Modernismo -Terceira Geração


Fonte: Itaú Cultural

OBRAS

Nostalgia dos Anjos (1939-1944)

Sonetos da Ausência (1940-1943)

Poesias, 1946

A Cidade do Sul, 1948

Poemas Reunidos, 1935/1960

Elegia de Guarapari (1953)

Antologia Poética, 1963

Transeunte (1963-1968)

Absurda Fábula, 1973

Discurso no Deserto (1975-1981)

Nó, 1984

O Tecelão do Assombro, 2000

12 de abr de 2009

Rima



Ontem - quando, soberba, escarnecias
Dessa minha paixão - louca - suprema
E no teu lábio, essa rósea algema,
A minha vida - gélida - prendias...

Eu meditava em loucas utopias,
Tentava resolver grave problema...
- Como engastar tua alma num poema?
E eu não chorava quanto tu te rias...

Hoje, que vivo desse amor ansioso
E és minha - és minha, extraordinária sorte,
Hoje eu sou triste sendo tão ditoso!

E tremo e choro - pressentindo - forte -,
Vibrar, dentro em meu peito, fervoroso,
Esse excesso de vida - que é a morte...
[1885]

Euclide da Cunha

Verso e Reverso

Bem como o lótus que abre o seio perfumado
Ao doce olhar da estrela esquiva da amplidão
Assim também, um dia, a um doce olhar, domado,
Abri meu coração.

Ah! foi um astro puro e vívido, e fulgente,
Que à noite de minh'alma em luz veio romper
Aquele olhar divino, aquele olhar ardente
De uns olhos de mulher...

Escopro divinal - tecido por auroras -
Bem dentro do meu peito, esplêndido, tombou,
E nele, altas canções e inspirações ardentes
Sublime burilou!

Foi ele que a minh'alma em noite atroz, cingida,
Ergueu do ideal, um dia, ao rútilo clarão.
Foi ele - aquele olhar que à lágrima dorida
Deu-me um berço - a Canção!

Foi ele que ensinou-me as minhas dores frias
Em estrofes ardentes, altivo, transformar!
Foi ele que ensinou-me a ouvir as melodias
Que brilham num olhar...

E são seus puros raios, seus raios róseos, santos
Envoltos sempre e sempre em tão divina cor,
As cordas divinais da lira de meus prantos,
D'harpa da minha dor!

Sim - ele é quem me dá o desespero e a calma,
O ceticismo e a crença, a raiva, o mal e o bem,
Lançou-me muita luz no coração e na alma,
Mas lágrimas também!

É ele que, febril, a espadanar fulgores,
Negreja na minh'alma, imenso, vil, fatal!
É quem me sangra o peito - e me mitiga as dores.
É bálsamo e é punhal.

Euclides da Cunha

Eu quero


Eu quero à doce luz dos vespertinos pálidos

Lançar-me, apaixonado, entre as sombras das matas

- Berços feitos de flor e de carvalhos cálidos

Onde a Poesia dorme, aos cantos das cascatas...

Eu quero aí viver - o meu viver funéreo,

Eu quero aí chorar - os tristes prantos meus...

E envolto o coração nas sombras do mistério,

Sentir minh'alma erguer-se entre a floresta de Deus!

Eu quero, da ingazeira erguida aos galhos úmidos,

Ouvir os cantos virgens da agreste patativa...

Da natureza eu quero, nos grandes seios túmidos,

Beber a Calma, o Bem, a Crença - ardente a altiva.

Eu quero, eu quero ouvir o esbravejar das águas

Das asp'ras cachoeiras que irrompem do sertão...

E a minh'alma, cansada ao peso atroz das mágoas,

Silente adormecer no colo da so'idão...

Euclides da Cunha

[1883]

Euclides da Cunha


O engenheiro, escritor e ensaísta brasileiro Euclides Rodrigues da Cunha (note: sem o antenome "Pimenta") nasceu em Cantagalo (Rio de Janeiro) em 20 de janeiro de 1866. Órfão de mãe desde os três anos de idade, foi educado pelas tias. Freqüentou conceituados colégios fluminenses e, quando precisou prosseguir seus estudos, ingressou na Escola Politécnica e, um ano depois, na Escola Militar da Praia Vermelha.

Contagiado pelo ardor republicano dos cadetes e de Benjamin Constant, professor da Escola Militar, atirou durante revista às tropas sua arma aos pés do Ministro da Guerra Tomás Coelho. Na ocasião, supostamente bradou as seguintes palavras: - Senhores! É odioso que se pretenda obrigar uma mocidade republicana e livre a prestar reverência a um lacaio da monarquia!

Euclides foi submetido ao Conselho de Disciplina e, em 1888, saiu do Exército. Participou ativamente da propaganda republicana no jornal O Estado de S. Paulo.

Proclamada a República, foi reintegrado ao Exército com promoção. Ingressou na Escola Superior de Guerra e conseguiu ser 1o. tenente e bacharel em Matemáticas, Ciências Físicas e Naturais.

Euclides casou-se com Anna Emília Ribeiro, filha do major Solon Ribeiro, um dos líderes da República.

Em 1891, deixou a Escola de Guerra e foi designado coajuvante de ensino na Escola Militar. Em 1893, praticou na Estrada de Ferro Central do Brasil. Quando surgiu a insurreição de Canudos, em 1897, Euclides escreveu dois artigos pioneiros intitulados "A nossa Vendéia" que lhe valeram um convite d' O Estado de S. Paulo para presenciar o final do conflito.

Euclides não ficou até a derrubada de Canudos. Mas conseguiu reunir material para, durante cinco anos, elaborar Os Sertões: campanha de Canudos (1902), sua obra-prima. Os Sertões trata da campanha de Canudos em 1897, no nordeste da Bahia. Divide-se em três partes: "A terra", "O homem" e "A luta". Nelas Euclides analisa as características geológicas, botânicas, zoológicas e hidrográficas da região, os costumes e a religiosidade sertaneja e, enfim, narra os fatos ocorridos nas quatro expedições enviadas ao arraial liderado por Antônio Conselheiro.

Os Sertões valeram ao autor grande notoriedade e vagas na Academia Brasileira de Letras e no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Em agosto de 1904, Euclides foi nomeado chefe da comissão mista brasileiro-peruana de reconhecimento do Alto Purus, com o objetivo de cooperar para a demarcação de limites entre o Brasil e o Peru. Ele partiu de Manaus para as nascentes do rio Purus, chegando adoentado em agosto de 1905. Dando continuidade aos estudos de limites, Euclides escreveu o ensaio Peru versus Bolívia, publicado em 1907.

Após retornar da Amazônia, Euclides proferiu a conferência "Castro Alves e seu tempo", prefaciou os livros Inferno Verde, de Alberto Rangel, e Poemas e canções, de Vicente de Carvalho. Visando estabilidade, impossível na carreira de engenheiro, Euclides prestou concurso para assumir a cadeira de Lógica do Colégio Pedro II. Farias Brito venceu o concurso mas, por intermédio de amigos, Euclides foi nomeado. No dia 15 de agosto de 1909, no Rio de Janeiro, Euclides foi morto por Dilermando de Assis, amante de sua esposa.


OBRAS

Os Sertões (1902),
Contrastes e confrontos (1907),
Peru versus Bolívia (1907),
À margem da história (1909),
Canudos: diário de uma expedição - Obra póstuma (1939) e
Caderneta de campo - Obra póstuma (1975).

A conferência Castro Alves e seu tempo (1907), foi proferida no Centro Acadêmico XI de Agosto da Faculdade de Direito de São Paulo.

Fonte: ORKUT Comunidade Confraria Poética II