3 de abr de 2009

Não és tu


Era assim, tinha esse olhar,
A mesma graça, o mesmo ar,
Corava da mesma cor,
Aquela visão que eu vi
Quando eu sonhava de amor,
Quando em sonhos me perdi.

Toda assim; o porte altivo,
O semblante pensativo,
E uma suave tristeza
Que por toda ela descia
Como um véu que lhe envolvia,
Que lhe adoçava a beleza.

Era assim; o seu falar,
Ingênuo e quase vulgar,
Tinha o poder da razão
Que penetra, não seduz;
Não era fogo, era luz
Que mandava ao coração.

Nos olhos tinha esse lume,
No seio o mesmo perfume,
Um cheiro a rosas celestes,
Rosas brancas, puras, finas,
Viçosas como boninas,
Singelas sem ser agrestes.

Mas não és tu...ai! não és:
Toda a ilusão se desfez.
Não és aquela que eu vi,
Não és a mesma visão,
Que essa tinha coração,
Tinha, que eu bem lho senti.


Almeida Garrett

Almeida Garrett



João Batista da Silva Leitão de Almeida, nome completo do escritor, nasceu no Porto em 1799 e faleceu em Lisboa em 1854.

O apelido irlandês está na genealogia da família: Garrett é o nome da sua avó paterna, que veio para Portugal no séquito de uma princesa.

Na adolescência foi viver para os Açores, em Angra do Heroísmo, quando as tropas francesas de Napoleão Bonaparte invadiram Portugal e onde era instruído pelo tio, D. Alexandre, bispo de Angra. Em 1816 seguiu para Coimbra, onde se matriculou no curso de Direito. Em 1821 publicou O Retrato de Vênus, trabalho que lhe custou um processo por ser considerado materialista, ateu e imoral.E neste mesmo ano que ele e sua família passam a usar o apelido de Almeida Garrett.

Participou da revolução liberal de 1820, seguindo para o exílio na Inglaterra em 1823, após a Vilafrancada. Antes havia casado com Luísa Midosi, de apenas 14 anos. Foi em Inglaterra que tomou contacto com o movimento romântico, descobrindo Shakespeare, Walter Scott e outros autores e visitando castelos feudais e ruínas de igrejas e abadias góticas, vivências que se refletiriam na sua obra posterior. Em 1824, seguiu para França, onde escreveu Camões (1825) e Dona Branca (1826), poemas geralmente considerados como as primeiras obras da literatura romântica em Portugal. Em 1826 foi anistiado e regressou à pátria com os últimos emigrados dedicando-se ao jornalismo, fundando e dirigindo o jornal diário O Português (1826-1827) e o semanário O Cronista (1827). Teria de deixar Portugal novamente em 1828, com o regresso do Rei absolutista D. Miguel. Ainda nesse ano perdeu a filha recém-nascida. Novamente em Inglaterra, publica Adozinda (1828) e Catão (1828).

Juntamente com Alexandre Herculano e Joaquim António de Aguiar, tomou parte no Desembarque do Mindelo e no Cerco do Porto em 1832 e 1833.

A vitória do Liberalismo permitiu-lhe instalar-se novamente em Portugal, após curta estadia em Bruxelas como cônsul-geral e encarregado de negócios, onde lê Schiller, Goethe e Herder. Em Portugal exerceu cargos políticos, distinguindo-se nos anos 30 e 40 como um dos maiores oradores nacionais. Foram de sua iniciativa a criação do Conservatório de Arte Dramática, da Inspecção-Geral dos Teatros, do Panteão Nacional e do Teatro Normal (atualmente Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa). Mais do que construir um teatro, Garrett procurou sobretudo renovar a produção dramática nacional segundo os cânones já vigentes no estrangeiro.

Com a vitória cartista e o regresso de Costa Cabral ao governo, Almeida Garrett afasta-se da vida política até 1852.Contudo, em 1850 subscreveu, com mais de 50 personalidades, um protesto contra a proposta sobre a liberdade de imprensa, mais conhecida por “lei das rolhas”.

A vida de Garrett foi tão apaixonante quanto a sua obra. Revolucionário nos anos 20 e 30, distinguiu-se posteriormente sobretudo como o tipo perfeito do dandy, ou janota, tornando-se árbitro de elegâncias e príncipe dos salões mundanos.Foi um homem de muitos amores, uma espécie de homem fatal. Separado da esposa, passa a viver em mancebia com D. Adelaide Pastor até à morte desta em 1841. A partir de 1846, a sua musa é a viscondessa da Luz, Rosa Montufar Infante, inspiradora dos arroubos românticos das Folhas caídas. Em 1851, Garrett é feito visconde de Almeida Garrett em duas vidas, e em 1852 sobraça, por poucos dias, a pasta dos Negócios Estrangeiros em governo presidido pelo Duque de Saldanha.

Falece em 1854, vítima de cancer ,em Lisboa, na sua casa situada na atual Rua Saraiva de Carvalho, em Campo de Ourique.

OBRAS

1819 Lucrécia

1821 O Retrato de Vénus; Catão (representação); Mérope (representação)

1822 O Toucador

1825 Camões

1826 Dona Branca

1828 Adozinda

1829 Lírica de João Mínimo; Da Educação (ensaio)

1830 Portugal na Balança da Europa (ensaio)

1838 Um Auto de Gil Vicente

1841 O Alfageme de Santarém (1842 segundo algumas fontes)

1843 Romanceiro e Cancioneiro Geral - tomo 1; Frei Luís de Sousa (representação)

1845 O Arco de Sant'Ana - tomo 1; Flores sem fruto

1846 Viagens na minha terra; D. Filipa de Vilhena (inclui Falar Verdade a Mentir e Tio Simplício)

1848 As profecias do Bandarra; Um Noivado no Dafundo; A sobrinha do Marquês

1849 Memória Histórica de J. Xavier Mouzinho da Silveira

1850 O Arco de Sant'Ana - tomo 2;

1851 Romanceiro e Cancioneiro Geral - tomos 2 e 3

1853 Folhas Caídas

1871 Discursos Parlamentares e Memórias Biográficas (antologia póstuma)

Fonte: Comunidade Biografia e Poesia Portuguesa





Na Rua do Dr. Barbosa de Castro, n.° 37, outrora conhecida como Rua do Calvario( 1679 a 1920), situa-se a casa do escritor Almeida Garrett.

Almeida Garrett, mais precisamente João Baptista da Silva de Almeida Garrett nasceu neste edifício a 4 de Fevereiro de 1799. tendo vivido no dito edifício até 1804 data em que se mudou com seus pais para Vila Nova de Gaia.

2 de abr de 2009

Encontro

Tela de Jean Leon Gerome

Que vens contar-me se não sei ouvir senão o silêncio?
Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe antigamente ou lá para o futuro.
É bem certo que existo: chegou-me a vez de escutar.
Que queres que te diga se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.
Aprendo a não saber: que a ciência aprenda comigo já que não soube ensinar.

O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas e não desce à cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma antes de desaparecer.

Para que queres que te apareça se me agrada não ter horas a toda a hora?

A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.

Para que me lastimas se este é o meu auge?!

Eu tive a dita de me terem roubado tudo menos a minha torre de marfim.

Jamais os invasores levaram consigo as nossas torres de marfim.

Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim.

Só não sei que faça da porta da torre que dá para donde vim.

Almada Negreiros

Almada Negreiros


José Sobral de Almada Negreiros é uma das figuras marcantes da geração modernista de "Orpheu". Nasceu em São Tomé e Príncipe a 7 de Abril de 1893 e morreu em Lisboa a 15 de Junho de 1970.

Filho do tenente de cavalaria António Lobo de Almada Negreiros, administrador do concelho de S. Tomé e de Elvira Sobral, foi educado no Colégio de Campolide, dos Jesuítas, e mais tarde, devido à extinção do Colégio em 1910, e por pouco tempo, no Liceu de Coimbra.

“Em 1911 ingressa na Escola Internacional de Lisboa, que tem um ensino mais moderno, e onde lhe proporcionam um espaço que lhe vai servir de oficina. e publica o primeiro desenho n'A Sátira. Em 1912 redige e ilustra integralmente o jornal manuscrito A Paródia, reproduzido a copiógrafo na Escola, expõe no I Salão dos Humoristas Portugueses, e colabora com desenhos para várias publicações.

Em 1913 realiza a primeira exposição individual, apresentando cerca de 90 desenhos na Escola Internacional, e conhece Fernando Pessoa, que escrevera uma crítica à exposição n'A Águia. Continua a colaborar como ilustrador para várias publicações, e em 1914 torna-se diretor artístico do semanário monárquico Papagaio Real.

No ano seguinte, escreve a novela A Engomadeira, publicada em 1917, onde aplica o interseccionismo teorizado por Fernando Pessoa, abeirando-se do surrealismo. Colabora no primeiro número da revista Orpheu, depreciado por Júlio Dantas, que afirma que não há justificação para o sucesso da revista e para a publicidade feita ao seu redor, afirmando que os autores são pessoas sem juízo. Ainda nesse ano de 1915, Almada realiza o bailado O Sonho da Rosa.

Em 21 de Outubro do mesmo ano estreia-se a peça de Júlio Dantas Soror Mariana. Almada irá reagir com a publicação do Manifesto Anti-Dantas.

O Manifesto causa algum impacto nos meios artísticos. Almada começa a corresponder-se com Sonia Delaunay, refugiada em Portugal com o marido por motivo da Guerra que assola a Europa. Publica o Manifesto da exposição de Amadeo de Souza Cardoso, com o título Primeira Descoberta de Portugal na Europa no Século XX.

Em 1917 realiza, vestido de operário, a conferência Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX, e publica a novela K4 O Quadrado Azul, que inspirou o quadro homônimo de Eduardo Viana. 1918, é quase inteiramente dedicado ao bailado integrando o grupo de Helena de Castelo Melhor.

Em 1919, com o fim da Primeira Guerra Mundial, parte para Paris, onde exerce atividades de sobrevivência, e escreve Histoire du Portugal para coeur, publicada em 1922, mas regressa no ano seguinte.

Em 1921 começa a colaboração com António Ferro, que o apresenta quando Almada realiza a conferência A Invenção do Corpo, como "o imaginário na terra dos cegos", e posteriormente o convida para desenhar para a Ilustração Portuguesa. Em 1923 Almada desenhará a capa do livro de Ferro, A Arte de Bem Morrer, continuando a produzir ilustrações para revistas, cartazes para empresas e publicando peças como Pierrot e Arlequim (1924), romances como Nome de Guerra (1925) e ensaios como A Questão dos Painéis; a história de um acaso de uma importante descoberta e do seu autor (1926).

De 1927 a 1932 vive em Espanha, e em 1934 casa com a pintora Sarah Afonso. Começa a ser solicitado regularmente para a realização de trabalhos de índole oficial, como seja um selo para a emissão comemorativa da 1.ª Exposição Colonial, um cartaz para o álbum Portugal 1934 editado pelo Secretariado da Propaganda Nacional e ilustrações para o programa das Festas da Cidade de Lisboa, e sobretudo começa os estudos para os vitrais a colocar na Igreja de Nossa Senhora de Fátima em Lisboa, que concluirá em 1938. Esta colaboração com a «Política do Espírito» de António Ferro culmina em 1941, quando o S.P.N. organiza a exposição Almada - Trinta Anos de Desenho, e o convida a participar na 6.ª Exposição de Arte Moderna e na exposição Artistas Portugueses apresentada no Rio de Janeiro, no Brasil e lhe atribui, em 1942, o Prêmio Columbano.

De 1943 a 1948 a sua atividade incide na realização dos frescos das Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, sendo-lhe atribuído o Prêmio Domingos Sequeira em 1946.

Regressa à realização de vitrais em 1951, desenhando os da Igreja do Santo Condestável, Lisboa, e os da Capela de S. Gabriel, em Vendas Novas, e à pintura em 1954, quando pinta o Retrato de Fernando Pessoa.

A sua atividade, no final dos anos 50, incide na decoração de obras de arquitetura, como sejam:

- painéis para o Bloco (Edifício) das Águas Livres e frescos para a Escola Patrício Prazeres (1956);

- decoração das fachadas dos edifícios da Cidade Universitária (1957);

- cartões de tapeçaria para a Exposição de Lausanne, o Tribunal de Contas e o Hotel de Santa Luzia de Viana do Castelo (1958) e o Palácio da Justiça de Aveiro (1962);

Realiza as suas últimas obras em 1969 - o painel Começar no átrio da Fundação Calouste Gulbenkian, começado no ano anterior, e os frescos Verão na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra.

Em 15 de Junho de 1970 morre no Hospital de São Luís dos Franceses, no mesmo quarto em que tinha morrido Fernando Pessoa.

OBRAS

K4 O Quadrado Azul(2000)
Nome de Guerra (2001)
Ficções(2002)
A Invenção do Dia Claro (2005)
Poemas (2005)
Manifestos e Conferências (2006)

Fonte: Comunidade ORKUT, Biografia e Poesia Portuguesa.

1 de abr de 2009

O Beijo



Beijo na face,
Pede-se e dá-se:
Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo:
Vá !

Um beijo é culpa,
Que se desculpa:
Dá?
A borboleta
Beija a violeta:
Vá !

Um beijo é graça,
Que a mais não passa:
Dá?
Teme que a tente?
É inocente...
Vá !

Guardo segredo,
Não tenha medo:
Vê?
Dê-me um beijinho,
Dê de mansinho,
Dê !

Como ele é doce !
Como ele trouxe,
Flor,
Paz a meu seio !
Saciar-me veio,
Amor !

Saciar-me? Louco...
Um é tão pouco,
Flor !
Deixa, concede
Que eu mate a sede,
Amor !

Talvez te leve
O vento em breve,
Flor !
A vida foge,
A vida é hoje,
Amor !

Guardo segredo,
Não tenhas medo
Pois !
Um mais na face,
E a mais não passe !
Dois...

Oh ! dois? piedade !
Coisas tão boas...
Vês ?
Quantas pessoas
Tem a Trindade?
Três !

Três é a conta
Certinha e justa...
Vês?
E que te custa?
Não sejas tonta !
Três !

Três, sim: não cuides
Que te desgraças:
Vês?
Três são as Graças,
Três as Virtudes;
Três.

As folhas santas
Que o lírio fecham,
Vês?
E não o deixam
Manchar, são... quantas?
Três !

João de Deus

João de Deus


De seu nome completo João de Deus Ramos, poeta lírico, dos maiores da língua portuguesa, nasceu em S. Bartolomeu de Messines (Algarve) em 8-03-1830 e morreu em Lisboa a 11-01-1896. Era filho de José Pedro Ramos comerciante, e de D. Isabel Gertrudes Martins.

A primeira instrução recebeu-a em casa, aprendendo então o latim. Em 1849 partiu para Coimbra, e ali, no seminário episcopal, terminou os preparatórios para ir cursar o Direito na Universidade.

O seu desenvolvimento espiritual nada deveu ao ensino universitário, que se achava então num dos seus períodos de maior decadência. No ano de 1850-51 ficou em S. Bartolomeu de Messines, perdendo o curso a que pertencia, e foi então que compôs a sua primeira poesia.

Voltou à Universidade em 1851-52 como «adventício do 2.º ano». Matriculado no 4.º ano jurídico de 1853-54, perdeu-o por faltas.
Em 1854-55 matriculou-se outra vez no 4.º ano jurídico e no 1.º curso administrativo. Em 1855, datada de 15 de Junho, apareceu a sua elegia Oração, com a dedicatória: «À Ex.ma Senhora D. R. C. N.». Era a gentil D. Raquel Nazaré, de uma conhecida família de Coimbra. Pouco tempo passado falecia ela, quase logo depois seguida pela mãe. Sob esta impressão escreveu o poeta outra elegia, com o título de Raquel, dedicada à irmã da falecida, D. Cândida Nazaré.

Tomado o grau de bacharel não regressou à Universidade nos anos de 56 a 58 chegando a pensar em que não terminaria a formatura. A prolongada doença de uma irmã fê-lo regressar a Coimbra em 1858 matriculando-se então no 5.º ano.
A formatura de João de Deus, como ele próprio pitorescamente dizia, «levou 10 anos, como a guerra de Tróia». Ao tempo em que se matriculava finalmente no 5.º ano, com um atraso de 4, tomava matrícula no 1.º Antero de Quental, que desde logo o admirou e exaltou muito. Em 1860, escrevia sobre João de Deus o futuro poeta dos Sonetos: « João de Deus é um desses mancebos, ricos de crença e de esperança, que se erguem por vezes no meio das turba entoando um cântico cheio de frescor e de vida, de bela e poderosa originalidade.

O que é hoje é já bastante; muito, porém, o que pode e deve ser. É muito porque é natural, porque escreve o que sente e quanto sente. Exalta-se pela imaginação, e, sustentando-se aí porque o entusiasmo lhe vem da alma, faz-nos amar e crer, chorar e sofrer com ele, porque o sentimento é real, brota do íntimo.

Homem, chora e alegra-se crê e duvida, como todos nós, como tudo que tem alma, como tudo que aspira ao infinito e se sente encadeado nesta prisão, vendo flutuar eternamente ante si o grande problema da verdade; poeta, sentindo em si a necessidade fatal de exprimir em cantos tudo que lhe vai dentro, diz o que sente na forma que lhe brota espontânea da ideia, fala a linguagem de seu coração… Lendo-se, conhece-se que não é uma inspiração fictícia aquela, porque só a verdade tem o poder de fazer sentir tudo quanto a palavra representa.

Naqueles versos há uma existência de homem que fala; como que se vê palpitar a vida e bater o sangue na artéria». E, continuando a fazer considerações sobre a poesia a propósito de João de Deus, o jovem Antero observava: «A verdade, eis a suma de toda essa legislação» (da estética). Ser natural, eis o supremo preceito». «Verdade», «naturalidade», eram com efeito palavras perfeitamente ajustadas à poesia de João de Deus.

Terminada a formatura em 1859, João de Deus deixou-se ficar em Coimbra no meio dos companheiros estudantes, até ao ano de 1862. Antero interessou-se por que se editassem as poesias compostas pelo seu amigo, e quanto se coligiu para essa edição, que nunca chegou a efetuar-se, foi parar à Biblioteca de Évora, constando de 33 poesias, características da sua primeira fase.

Nos últimos anos de Coimbra propendeu para a sátira, onde se manteve sempre bastante abaixo das alturas a que subiu na lírica. Indo de regresso para o Algarve em 1862, demorou-se em Beja, contratado para a redação do periódico O Bejense. Ocupou-se nessas funções até 1864, deixando ali muitas composições líricas. Em 1868 apareceram as suas poesias coligidas em volume com o título de Flores do Campo, depois de andarem reproduzidas por jornais. Em 1869 foi eleito deputado por Silves, por influência de José António Garcia Blanco e Domingos Vieira, o que levou o poeta a fixar residência em Lisboa.

A política não o atraía, e aceitara a eleição sobretudo por condescendência ao pedido dos amigos; por isso só se conservou numa legislatura, raras vezes aparecendo na Câmara. Durante esse tempo sofreu grandes privações. Passava grande parte do dia e da noite no café Martinho, cavaqueando. O casamento com D. Guilhermina Battaglia (v.) fê-lo abandonar esse costume.

Em 1888 obtiveram para ele a nomeação de comissário geral do ensino da leitura segundo o método de que era autor, e que foi declarado nacional (v. Cartilha Maternal). Em 1868 apareceram as suas poesias coligidas sob o título de Flores do Campo, publicadas por José António Garcia Blanco; em 1878 saiu no Porto uma 2.ª edição, sendo de 1869 a colectânea Ramo de flores. De 1893 é a edição com o título Campo de Flores, organizada por Teófilo Braga, que coligiu tudo que do poeta havia disperso.

O autor deixou em meio uma nova edição do Campo de Flores, que saiu em 1896, na qual foram inclusas mais 120 poesias que se encontravam em diferentes jornais. Em 8-III-1895 fez-se-lhe uma manifestação promovida pela juventude das escolas, apoteose majestosa, como nunca se vira em Lisboa. No cortejo que o foi saudar a casa, iam todos os estudantes das escolas superiores e inferiores de Lisboa, os da Universidade de Coimbra, do Porto, Santarém, Braga, Lamego e Portalegre, etc., com seus estandartes; representava-se toda a imprensa portuguesa, tunas académicas, povo, crianças.

A Academia Real das Ciências e o Instituto de Coimbra proclamaram-no seu sócio de honra. Seguiu-se à manifestação, que se repetira no dia 9, um sarau em D. Maria, a que foi assistir o Rei D. Carlos I e o poeta saiu da sala por sobre capas de estudantes, sendo levado a casa num trem a que os rapazes desatrelaram os cavalos e puxaram por cordas durante o trajeto. Falecido a 11-I-1896, o seu funeral foi outra manifestação verdadeiramente imponente e o corpo ficou no panteão dos Jerónimos, em Belém.


A poesia de João de Deus, de todo alheia a escolas, não tem a marca da respectiva época, conservando-se igualmente distante do erotismo falso, piegas, melodramático, pretensioso, de um degeneradíssimo lamartinismo, que caracterizou a obra dos ultra-românticos, e dos ideais filosóficos, científicos, revolucionários, próprios dos poetas típicos do Terceiro Romantismo. Indiferente a uma e outra escola, João de Deus ateve-se à verdade da sua maneira de ser, simples, ardorosa, encantada e elevada.

Os temas fundamentais da sua lírica são Deus e a mulher, a aspiração religiosa e o impulso erótico. Como escreveu José Régio, «desde a sensualidade cândida à veneração mística, o seu amor adeja buscando a forma, e atingindo o espírito em virtude da natural elevação e da imperturbável inocência do poeta. Inocente, nenhum poeta amoroso o foi mais que João de Deus.

A sua sensualidade expande-se em confissões e enlevos de tanta ingenuidade e frescura, que o desejo, várias vezes presente nos seus versos, aí aparece despido de toda a fealdade. Nada de obsceno, de pervertido, de culpado, de hipócrita, macula a puríssima naturalidade do seu impulso para a mulher. Deste amor sensual, embora alado, ergue-se o poeta ao culto da mulher. O seu amor sobe a chamar-se adoração; e é uma simpatia de alma enlevada, um apelo de ser íntimo e supremo, uma sedução espiritualizada pela religiosidade do amante. De tal amor, em que o poeta místico e o sensual se fundem, não irá grande distância, em certas naturezas, ao amor divino.

O poeta algumas vezes interroga e duvida; mas logo verga a cabeça no seio de seu criador. E a espontânea unção de seu espírito dita-lhe versos – todos os seus versos de carater piedoso – em que a luminosa simplicidade dos processos só tem rival na religiosidade do sentimento ou na originalidade da expressão». A primeira poesia escrita por João de Deus parece ter sido Pomba (1851), publicada primeiro no Eco do Lima e depois no Campo de Flores.

As revistas em que apareceram as suas primeiras produções poéticas, quase todas ditadas a amigos que depois as faziam sair a lume, foram:

Estreia Literária, Ateneu, Instituto (todas de Coimbra), Prelúdios literários, Fósforo, Academia, Renascença, Tira Teimas, Herculano, etc., etc. Além das edições já mencionadas, houve: Horácio e Lídia (uma ode de Horácio), Comédia num acto em verso por F. Ponsard, etc., traduzida também em verso, e acompanhada do original, Lisboa, 1872; Pires de marmelada, improviso académico, Lisboa, 1869; Despedidas do verão, poesias; Folhas soltas, Porto, 1876; Cartilha maternal de leitura, com numerosas edições a partir de 1876; A cartilha maternal e a imprensa, Lisboa, 1877; A cartilha maternal e o apostolado; a tradução dos Deveres dos filhos, obra de Th. H. Barrau, Lisboa, 1875; Dicionário prosódico de Portugal e Brasil, Lisboa, 1870; as traduções de quatro peças de Méry: Amemos o nosso próximo, parábola em 1 ato. Ser apresentado, comédia em 1 ato, Ensaio de casamento, comédia em 1 ato, A viúva inconsolável, comédia em 4 partes; a versão da Vida da Virgem Maria, de monsenhor Darboy, arcebispo de Paris, Lisboa, 1873; Grinalda de Maria, prosa do padre António Vieira, versos de João de Deus, Lisboa 1877;

Os Lusíadas e a conversação preambular, carta a Avelino de Sousa, 1880; Provérbios de Salomão, 1886, Campo de Flores, ed. Econômica, com mais 15 poesias que a anterior (1897), e Prosas, 1898 (póstumo). Em 1905 a antiga Casa Bertrand editou O Festival de João de Deus, apoteose da autoria de Teófilo Braga. Em 1930 saiu uma antologia da lírica, organizada por Afonso Lopes Vieira, com o título O Livro de amor de João de Deus (Lisboa, Bertrand).

O Algarve erigiu-lhe na Praça D. Francisco Gomes, em Faro um modesto monumento e a Câmara deu a uma das ruas próximas do Liceu, que também se denomina «Liceu João de Deus» o nome do grande poeta. No jardim Guerra Junqueiro, o antigo Passeio da Estrela, de Lisboa, foi inaugurado em 1942 um busto do poeta. Têm o nome de João de Deus os jardins-escola fundados por seu filho João de Deus Ramos.

OBRA POÉTICA

Flores do Campo (1868),
Folhas Soltas (1876) e
Campos de Flores(1893)

31 de mar de 2009

Transantúltimas vontades


A meus filhos — para que as
cumpram, ou não, e as façam
(ou não) cumprir.

Meninos, tomem sentido:
amanhã já não me acordem.
— É isso, pai, um pedido?...
— Não, amores: é uma ordem.

Vou morrer menino e moço,
sem pátria nem parentela,
com esta cruz ao pescoço
e a coroa real na lapela.

Pretendo um inteiro olvido.
Não quero que me recordem.
— É isso, pai, um pedido?...
— Não, amores: é uma ordem.

Rodrigo Emílio

Para a menina de seu pai


Para a menina de seu pai,
Trint’anos depois...

A minha filha primeira
nasceu após o Natal.
Esta lágrima... Esta olheira...
datam do seu funeral.

Tinha um perfil tão perfeito
— de filigrana franzina,
essa menina-de-peito
que me morreu, em menina...!

F’lipinha não se esvai...
Faz hoje anos. Trinta anos!
Veio convidar o pai
para a festa ser de ambos...


Rodrigo Emílio

Rodrigo Emílio



Rodrigo Emílio de Alarcão Ribeiro de Mello nasceu em Lisboa a 18 de Fevereiro de 1944, um mês depois de perder a avó paterna, que não chegou a conhecer. Perdeu o pai a 27 de Setembro de 1952, quando ainda não tinha dez anos, que lhe causa um vazio infindável.



Em 1953, sofre um novo desgosto com a morte do avô paterno. Estudou no Colégio João de Deus,no Liceu Camões e cursou Filologia Românica, curso que o obrigou a passar um ano em Coimbra.



Os seus primeiros versos datam da infância e juventude e são editados em diversas publicações. Em 1963 sai a lume na separata da revista Ocidente a novela-quase-poema Rasgões no Sonho, que teve também a versão portuguesa do texto poético da opereta com música de Schubert Canção de Amor, que subiu à cena em Lisboa no Teatro da Trindade e inaugurou o programa da temporada lírica do mesmo ano.



Ainda em 1963, é premiado no Concurso de Manuscritos do S.N.I. como autor do original As Lágrimas Ancoradas à Sombra do Amor, que em 1965 publica em livro.



Sonhador e romântico como todo o poeta verdadeiro, ofereceu rimas e versos, entoou trovas e serenatas, cantou e encantou a terra dos avós paternos que tanto amava.



Casou-se com Maria Ester em Abril de 1967 na capela da sua casa de São José em Parada de Gonta e tiveram quatro filhos. Em plena lua de mel por terras de Serém, é informado por uma pessoa da família que deverá apresentar-se em Mafra nesse mesmo mês para o serviço militar.



O mês de Janeiro de 1968 marca o nascimento do seu primeiro filho, Rodrigo Victor, nome que era também de seu pai, avô do recém-nascido. Seis meses depois de terminada a recruta em Mafra, embarca com a família para Moçambique onde vai cumprir a comissão militar. Durante dois anos, presta serviço como alferes miliciano no Corpo Expedicionário.



Em 1969 vai a Lisboa de licença, ocasião em que recebe o premio dos Jogos Florais da Emissora Nacional na modalidade de Poesia Lírica com que tinha sido contemplado.



Nos últimos meses de 1970 regressa definitivamente a Portugal à mídia portuguesa, onde aliás já prestava serviço, e inicia a produção das rubricas de poesia ‘Vestiram-se os Poetas de Soldados’ e ‘Sobre a Terra e Sobre o Mar’ exibidas em 1971 e 1972, respectivamente. Ao mesmo tempo, colabora assiduamente com a Verbo Editora nos sectores cultural e educativo.



A 27 de Dezembro de 1971 nasce-lhe a primeira filha, a quem dá o nome de Filipa Catarina, mas a 11 de Janeiro, quando ainda mal despontava para a vida, a pequena Filipa Catarina abandona este mundo depois de uma agonia atroz e lancinante que o mergulha num luto interminável.



Em 1972, dedica à filha morta uma elegia de grande beleza poética, Poemas Acenados a Uma Criança Longe, que, mais que nenhuma, talvez, exprime num estilo incomparável a dor de uma perda sem remédio, a tristeza sem cura de uma saudade para sempre.



Em 1973, é editada a antologia de poetas portugueses ‘Vestiram-se os Poetas de Soldados — Canto da Pátria em Guerra’ em homenagem aos combatentes da guerra do Ultramar, antologia organizada por Rodrigo Emílio.



Ainda em 1973, dá à estampa mais dois livros, Primeira Colheita e A Segunda Cegueira, a que se segue um terceiro, Serenata a meus Umbrais, súmula de textos em prosa e em verso de grande beleza plástica.



A 17 de Julho do mesmo ano nasce-lhe outro filho, Gonçalo Tomás, o terceiro da família.



Perseguido pelo regime da época, Rodrigo Emílio viu-se forçado a tomar o caminho do exílio e partiu com a família para Madrid, onde a 18 de Março de 1975 veio ao mundo Constança Filipa, a segunda filha e última nascida.



Um dia, sempre acompanhado da mulher e dos filhos, deixa a Espanha que o tinha acolhido, cruza o céu do Atlântico e voa para o Canadá a alimentar uma esperança, mas em breve é torturado pela lonjura que o aflige e separa de tudo… e segue para o Brasil, onde sucede o mesmo, a mesma inquietação, a mesma ansiedade, a mesma nostalgia. As notícias que espera chegam tarde, é longe… e regressa a Madrid com o filho Gonçalo. A mulher e os outros filhos ficam no Rio de Janeiro para que o Rodrigo Victor não perca a primeira classe da escola. Mais tarde e de novo, estão todos reunidos em Madrid. É então que decide regressar a Lisboa.



Havia que refazer um pouco a vida, procurar um ponto de apoio menos incerto e mais seguro, e entra ao serviço da Rádio Renascença. Os filhos ingressam no Colégio Manuel Bernardes.



Na década de 80 vai viver para Viseu onde leciona durante três anos em escolas oficiais, mas não faz parte do seu caráter submeter-se a horários programados, a regras frias e imprecisas, a intrigas escolares, a proibições caprichosas e sem justificação… e decide dar explicações em sua própria casa. Entretanto, deixa Viseu cada fim de semana e retira-se na Casa de S. José em Parada de Gonta onde continua solitariamente, muitas vezes dias a fio e noites adentro, a sua magnífica e inspirada obra literária e poética. Onde recebe também os amigos e camaradas que o visitam e com quem partilha longas tertúlias... sempre fiel ao inseparável Português Suave e à chávena de café.



A 24 de Janeiro de 1996 recebe a notícia de que é avô. O primeiro neto chama-se Rodrigo como ele próprio e é o iniciador da quarta geração. Dois anos mais tarde, a 8 de Dezembro, nasce o segundo neto, Tiago.



Os últimos tempos em Parada de Gonta fizeram-no conhecer dias difíceis e penosos, horas cruéis que teriam derrubado uma alma menos sã ou menos preparada. Não obstante a existência discreta e pacata que levava entre pilhas de papéis e montanhas de livros, não poucas vezes se via alvo da inveja, da mesquinhês, do dito torpe e malévolo e, frequentemente, da baixeza de “gente feita à pressa com pressa de ser gente”, como ele mesmo dizia muito acertadamente...



E voltou de novo para Lisboa, não apenas porque sentia que chegava aos limites do que devia suportar, mas porque queria estar perto dos que continuavam a merecer a sua estima e que, na verdade, não o abandonaram. Depois, era o convívio literário e poético, o reencontro com velhos amigos, a partilha de ideias e gostos idênticos, a comunhão recordações, o culto do amor à Pátria... que um dia foi.



Era um farol resplandecente na noite negra e tormentosa, um carbúnculo brilhante nesta era de espanto assombrada pelo pio lúgubre do pássaro da morte... Era ele com os pés na terra e os olhos no céu, uma mão na caneta e outra na espada, o porte nobre e fidalgo do poeta-guerreiro para quem a honra se chama fidelidade.



Rodrigo Emílio tinha de pagar o tributo final... para chegar à última clarificação, talvez, que é o mais certo. Assim, foi-se deixando morrer, mas aos poucos, devagar, como o Rei-menino de Alcácer Quibir. Havia que matar saudades e quis voltar aos seus mortos e se foi em 28 de março de 2004.



OBRAS



As lágrimas ancoradas à sombra do amor (1963)

Mote para motim (1971)

Paralelo 26 s às audições do ìndico (1971)

Poemas acenados a uma criança longe (1972)

A segunda cegueira (1973)

Primeira colheita (1973)

Serenata a meus umbrais (1976)

Reunião de ruínas (1978)

Poemas de braço ao alto (1982)



Fonte: Comunidade Biografia e Poesia Portuguesa



MARIPOSAS COMPANHEIRAS



Seguimos a mesma rota,
Feito pássaros alados
Borboleteando o espaço,
Almejando o topo do mundo.

Somos mariposas companheiras
Buscando a claridade!
Somos as nossas verdades
Tentando ascender o porvir,
Na construção de nós mesmos,
Para depois seguir.

Genaura Tormin

30 de mar de 2009

A brisa da existência

Paisagem de Cedro - CE, do álbum de Edson Reis
Há anos e anos, o poeta
e debruça em seu ofício
de servir ao mundo.

Não é leve o fardo.
Bem sabe, porém,
dos prazeres que há
em cerzir palavras no vento.

Um dia – justiça seja feita –
lhe darão o prêmio maior
e a civilização se curvará
ao brandir de suas linhas.

Se tal sorte não alcançar,
bastará que lhe digam:
és o poeta de teu país.

Já poderá morrer.
Mas se nem isto lhe for dado
gozar, que lhe deem o título,
fugaz, de grande poeta.

Não seja isto, porém, razão
de morrer ou viver.
Por que buscar mais
do que ser, simplesmente,
o poeta de sua cidade?!

De nem tanto precisa.
Se alguém, com quem cruzar,
lhe gritar ao ouvido:
oh, você, o meu poeta,

já terá valido a pena
haver-se dado à sina
de ouvir dentro de si
a brisa da existência.


Alcides Buss

Poema da noite

Imagem: Cedro - Ce. Foto do álbum de Edson Reis

O que falta dizer
depois do adeus?

A alma, qual roseira
no deserto, reconhece
a algema de sal
que prende o algoz
a si próprio.

Um resíduo de luz
assinala um desejo,
a flâmula dum erro,
um frêmito
nas cordas vocais.

Eu, tu, nós:
rumamos para onde menos dói
estar na esteira dos fatos.

Se pudéssemos, lentamente
deixaríamos tudo como era
e lembraríamos as coisas
como quem adormece.

Alcides Buss

ALCIDES BUSS


Alcides Buss Nasceu na localidade de Ribeirão Grande, atual município de Salete, no Alto Vale do Itajaí, em 1948.. É diretor da Editora da Universidade Federal de Santa Catarina, e desde 1980, professor de Teoria Literária na mesma instituição. Iniciou sua carreira literária com o livro Círculo Quadrado, em 1970. Depois disto publicou mais dezenove obras, sendo uma delas um estudo sobre Cobra Nonato, do modernista Raul Bopp.

Durante a década de 70, atuando como diretor de cultura da Prefeitura de Joinville/SC promoveu um trabalho de resgate da cultura popular e de popularização das artes em geral, que ficou conhecido em todo o Brasil. Concertos, recitais eruditos e espetáculo de dança passaram a ser levados a lugares tais como praças públicas, escolas e igrejas. Exposições artísticas circulavam, de forma itinerante, nos bairros da cidade. E a literatura, especialmente a poesia, foi às ruas através de varais literários.

São marcos da época de Joinville a criação da, hoje tradicional, Feira de Arte e Artesanato, a implantação do Museu de Arte, a realização de concursos de jardins nas residências e fábricas, e a instalação da Escola de Dança, semente do que se transformou no maior festival de dança da América Latina.

Em 1980, transferindo-se para Florianópolis, Alcides Buss criou na UFSC uma das primeiras oficinas literárias do Brasil. Durante anos, as oficinas promoveram a renovação literária, abrindo espaço também para o desenvolvimento de outras artes, como o cinema. Através delas, os varais literários se intensificaram e foram alcançando, aos poucos, outras cidades e estados brasileiros.

Eleito em 1993 presidente da Associação Brasileira das Editoras Universitárias, para um mandato de dois anos, empenhou-se no fortalecimento da instituição, garantindo a participação das edições universitárias em todos os eventos nacionais e internacionais mais importantes. Seu objetivo maior, no entanto, foi a formação de uma rede nacional para distribuição e comercialização das edições acadêmicas, que abrange atualmente mais de cem livrarias.

Com o livro Pessoa que finge a dor, lançou em 1985 o Movimento de Ação do Livro. Através dele, parte de uma tiragem é destinada à circulação livre e popular. De mão em mão, o livro procura o seu leitor, podendo chegar a expressivo número de pessoas, nos mais distantes lugares.

Alcides Buss presidiu a União Brasileira de Escritores de Santa Catarina no período de 1997-1999. Foi finalista do Prêmio Jabuti 2000 com o livro Cinza de Fênix e três elegias (Editora Insular, 1999). Em 2000 publicou o livro infantil Pomar de Palavras, pela editora Cuca Fresca e, em 2002, pela Editora da UFSC, o livro Contemplação do amor – 30 anos de poesia escolhida.

O livro A Poesia do ABC foi publicado inicialmente pela Editora Mercado Aberto, de Porto Alegre. Teve várias edições e recebeu o prêmio da APCA – Associação Paulista de Críticas de Arte. Foi adotado pelo programa Salas de Leitura do MEC. Atualmente há uma nova edição pela Editora Cuca Fresca. Além de diretor da Editora da UFSC, Alcides Buss é Diretor de Comunicação da Associação Brasileira de Editoras Universitárias.

OBRAS

• Círculo quadrado, Joinville, edição do autor, 1970
• O bolso ou a vida?, Florianópolis, DCE/UFSC, 1971
• Ahsim, Florianópolis, editora Lunardelli, 1976
• O homem e a mulher, Joinville, edição do autor, 1980
• Cobra Norato e a especificidade da linguagem poética, Florianópolis, FCC, 1982
• O homem sem o homem, Florianópolis, editora Noa Noa, 1982
• Antologia do varal literário (Org.), Florianópolis, Editora da UFSC, 1983
• Sete pavios no ar, Florianópolis, Edições Sanfona, 1985
• Pessoa que finge a dor, Florianópolis, Movimento de Ação do Livro, 1985
• Segunda pessoa, Florianópolis, Movimento de Ação do Livro, 1987
• Transação, Florianópolis, M.A.L. Edições, 1988
• A poesia do ABC (infantil), Porto Alegre, editora Mercado Aberto, 1989
• O professor é um poeta (Org.). Florianópolis, Editora da UFSC, 1989
• Contemplação do amor – vinte anos de poesia escolhida, Florianópolis, Editora da UFSC, 1991
• Natural, afetivo, frágil, Florianópolis, Edições Athanor, 1992
• Nenhum milagre, Florianópolis, editora Letras Contemporâneas, 1993
• Sinais/Sentidos, Florianópolis, M.A.L. Edições, 1995
• Cinza de Fênix e três elegias, Florianópolis, editora Insular, 1999
• Pomar de palavras (infantil), Florianópolis, Cuca Fresca Edições, 2000
• Contemplação do amor – trinta anos de poesia escolhida. Florianópolis, Editora da UFSC, 2002
• Cadernos da Noite, M.A.L. Edições, 2004


PREMIAÇÕES

* 1º lugar no I Festival Catarinense de Poesia Universitária – DCE-UFSC, 1971
* Prêmio Magister – Sindicato dos Professores de Santa Catarina, 1985
* Prêmio APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte, 1989
* Medalha Caio Prado Júnior – UBE-RJ, 1994
* Medalha Manuel Bandeira – UBE-RJ, 1996
* Mérito Livreiro Odilon Lunardelli, 1998
* Mérito Cultural Cruz e Sousa, 2001
* Prêmio Ruth Laus - UBE-RJ, 2008

Fonte: Confraria Poética II do ORKUT

29 de mar de 2009

O Sono de Um Anjo

Imagem: Jevan Siqueira

Quando ela dorme, como dorme a estrela
Nos vapores da tímida alvorada,
E a sua doce fronte extasiada,
Mais perfeita que um lírio, e tão singela,

Tão serena, tão lúcida, tão bela,
Como dos anjos a cabeça amada,
Repousa na cambraia perfumada,
Eu velo absorto o casto sono dela.

E rogo a Deus, enquanto a estrela brilha,
Deus que protege a planta e a flor obscura,
E nos indica do futuro a trilha,

Deus, por quem toda a criação se humilha,
Que tenha pena dessa criatura,
Desse botão de flor — que é minha filha

Luís Guimarães Júnior

PAISAGEM

Imgem: Jevan Siqueira

O dia frouxo e lânguido declina
Da Ave-Maria às doces badaladas;
Em surdo enxame as auras perfumadas
Sobem do vale e descem da colina.

A juriti saudosa o colo inclina
Gemendo entre as paineiras afastadas;
E além nas pardas serras elevadas
Vê-se da Lua a curva purpurina.

O rebanho e os pastores caminhando
Por entre as altas matas, lentamente,
Voltam do pasto num tranqüilo bando;

Suspira o rio tépido e plangente,
E pelo rio as vozes afinando,
As lavadeiras cantam tristemente


Luís Guimarães Júnior
Sonetos e rimas (1880)

LUÍS GUIMARÃES JÚNIOR



Luís Caetano Guimarães Júnior, diplomata, poeta, romancista e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 17 de fevereiro de 1845, e faleceu em Lisboa, Portugal, em 20 de maio de 1898. Foi um dos dez membros eleitos para se completar o quadro de fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde criou a Cadeira n. 31, que tem como patrono o poeta Pedro Luís.

Era filho de Luís Caetano Pereira Guimarães, português, e de Albina de Moura, brasileira. (Há uma divergência na data de seu nascimento: Sílvio Romero indica o ano de 44; outras fontes registram 1847. A filha do poeta, D. Iracema Guimarães Vilela, forneceu a Múcio Leão a data de 45.) Fez os primeiros estudos no Rio de Janeiro. Aos dezesseis anos escreveu o romance Lírio branco, dedicado a Machado de Assis. Partiu para São Paulo, a fim de continuar os estudos preparatórios, e lá recebeu uma carta de Machado de Assis animando-o a prosseguir na carreira das letras. Fez o curso de Direito no Recife entre 1864 e 1869.

Ali assistiu ao desenvolvimento da "escola condoreira", em que tomou parte mais ou menos diretamente. Continuou a escrever, multiplicando-se no jornalismo e escrevendo livros de contos, comédias e poesias. Aos 28 anos, apaixonado por Cecília Canongia, cogitou de se casar. Sua situação no jornalismo e nas letras, embora brilhante, não lhe proporcionava os meios para viver estavelmente. O poeta e amigo Pedro Luís, então ministro dos Negócios Estrangeiros, oferece-lhe um lugar na diplomacia como secretário de Legação em Londres. De 1873 a 1894, passou por vários outros postos, em Santiago do Chile, em Roma, onde serviu sob as ordens de Gonçalves de Magalhães, e em Lisboa; foi, depois, como enviado extraordinário, para Veneza. Em 1894, transferiu-se, já aposentado, para Lisboa, onde veio a falecer.

Em Lisboa, como secretário de Legação, teve ocasião de conhecer alguns dos mais ilustres espíritos do tempo. Foi amigo de Ramalho Ortigão, Eça de Queirós, Guerra Junqueiro, Fialho de Almeida. Distinguia-se como poeta e como homem do mundo. Ramalho Ortigão assim o definiu: "Como poeta, ele é um primeiro adido à legação da elegância... O seu estilo tem um lavor de renda, uma suavidade de veludo e um fresco perfume de toilette." Tinha predileção pelas cidades da arte e do pensamento. O poeta celebra Londres, celebra Roma. Mais que tudo, porém, recorda o seu país. Suas principais obras são Corimbos e Sonetos e rimas.


O primeiro representa a fase em que vivia no Brasil (1862 a 1872); o outro, o período em que residiu na Europa. A apreciação de críticos e estudiosos como Vicente de Carvalho, Medeiros e Albuquerque e Carlos de Laet, foi de pleno reconhecimento da poesia de Luís Guimarães Júnior. Seus sonetos revelam um grande apuro da forma, combinações métricas finas e sutis, e o gosto pelos motivos exóticos que ele pôde sentir e observar em suas peregrinações por terras estrangeiras. Romântico de inspiração, mas já dentro da orientação parnasiana, ele foi, no apuro da expressão, um precursor da poesia de Raimundo Correia, Bilac e Alberto de Oliveira.

OBRAS
* Lírio branco, romance (1862);
* Uma cena contemporânea, teatro (1862);
* Corimbos, poesia (1866);
* A família agulha, romance (1870);
* Noturnos, poesia (1872);
* Filigranas, ficção (1872);
* Sonetos e rimas, poesia (1880);
* As quedas fatais, teatro;
* André Vidal, teatro;
* As jóias indiscretas, teatro;
* Um pequeno demônio, teatro;
* O caminho mais curto, teatro;
* Os amores que passam, teatro;
* Valentina, teatro;
* A alma do outro mundo, teatro (1913).


Fonte: ORKUT Comunidade Confraria Poética II

OLGA SAVARY


Olga Savary nasceu em Belém do Pará, em 21 de maio de 1933, e é carioca por adoção. Escritora (poeta, contista, romancista, crítica e ensaísta), tradutora e jornalista, tem inúmeros livros publicados, tendo sido agraciada com vários dos principais prêmios nacionais de literatura, entre eles o Prêmio Jabuti de Autor Revelação, pelo livro Espelho Provisório, concedido pela Câmara Brasileira do Livro (1971), o Prêmio de Poesia, pelo livro Sumidouro, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte (1977), e o Prêmio Artur de Sales de Poesia, concedido pela Academia de Letras da Bahia pelo livro Berço Esplêndido (1987).

Traduziu mais de 40 obras de mestres hispano-americanos (Borges, Cortázar, Fuentes, Lorca, Neruda, Octavio Paz, Semprún, Vargas Llosa e outros), e os mestres japoneses do hai-kai, (Bashô, Buson e Issa).

Correspondente de revistas culturais no Brasil e no exterior, organizou várias antologias de poesia, entre as quais a maior e mais completa já editada no Brasil, para a Secretaria Municipal de Cultura – Fundação RioArte / Rio de Janeiro. Representou o Brasil no Poetry International (1985), congresso mundial realizado em Roterdã. Sua obra está presente em diversas antologias brasileiras e internacionais.

A Antologia de Poesia da América Latina, editada na Holanda em 1994, com apenas 18 poetas — inclusive dois prêmios Nobel: Neruda e Paz — inclui Olga Savaryentre os maiores poetas do continente. Além de seu trabalho profissional integralmente dedicado à literatura desde 1947, Olga Savarytem presença ativa em instituições culturais e comunitárias: é membro titular do Pen Clube (associação mundial de escritores, vinculada à Unesco), da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI (Associação Brasileira de Imprensa) e do Instituto Brasileiro de Cultura Hispânica.

Foi presidente do Sindicato de Escritores do Estado do Rio de Janeiro em 1997-98. Por serviços relevantes prestados à cultura nacional, foi escolhida "Mulher do Ano" pelo jornal O Globo, em 1975, e pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, em 1996.

Na poesia radicalmente feminina de Olga Savary, o vigor poético se alia a uma profunda brasilidade. As raízes culturais brasileiras estão presentes ao longo de sua obra, inclusive no uso sistemático de palavras em tupi, língua original falada em Pindorama, depois Brasil. Com as comemorações dos 500 anos da descoberta do Brasil, nada mais justo e oportuno, portanto, do que a homenagem que a Fundação Biblioteca Nacional (em parceria com a Universidade de Mogi das Cruzes e a MultiMais Editorial) fez a Olga Savary, com a edição de sua Obra Reunida em Repertório Selvagem.

OBRAS

Espelho Provisório (poemas), 1970
Sumidouro (poemas), 1977
Altaonda (poemas), 1979
Magma (poemas), 1982
Natureza Viva, (poemas), 1982
Hai-Kais (poemas), 1986
Linha D'água (poemas), 1987
Berço Esplendido (poemas), 1987
Retratos (poemas), 1989
Rudá (poemas), 1994
Éden Hades (poemas), 1994
Morte de Moema (poemas), 1996
Anima Animalis (poemas), 1996
O Olhar Dourado do Abismo (contos), 1997
Repertório Selvagem - Poesia Reunida, 1998

OUTROS GÊNEROS LITERÁRIOS

Conto

– O olhar dourado do abismo. (1997).

Jornalismo Literário, Crítica e Ensaio

– As margens e o centro(1998)
– Ladrão de alma.
– Mão no fogo.

Infanto - Juvenis

– Quem tudo quer... vira arco-íris.
– Alegria de viver..

Antologias organizadas pela autora

– Carne Viva – I Antologia brasileira de poesia erótica. Poesia. (1984).
– Antologia da nova poesia brasileira. Poesia. (1992)
– Hai-kais brasileiros. Poesia.

Fonte: ORKUT Comunidade Confraria Poética II

SIGNO



Há tanto tempo que me entendo tua,
exilada do meu elemento de origem: ar,
não mais terra, o meu de escolha,
mas água, teu elemento, aquele
que é do amor e do amar.

Se a outro pertencia, pertenço agora a este
signo: da liquidez, do aguaceiro. E a ele
me entrego, desaguada, sem medir margens,
unindo a toda esta água do teu signo
minha água primitiva e desatada.

Olga Savary

Casa de Morar


casa de morar

juntar telhas é esconder
o céu remendar o teto
proteger do dia
espantar mosquitos

comprar uma moldura de madeira
sem ter o que emoldurar
é desenhar na parede
um retângulo
é recortar o ar

erguer escadas é empilhar
degraus é levar pro
teto é trotear
pro térreo

não tem cabimento esse chão que cobre tudo

Olga Savary