21 de mar de 2009

PRIMAVERA


PRIMAVERA
(Genaura Tormin)

Campos floridos, relva verde, vida nova!
A natureza em festa no oráculo das manhãs.
O sol chega atrevido, faceiro, bonito,
Alumbrando os restos de madrugada.
E o vento assobia dengoso,
Acordando as flores sonolentas.

Tudo renasce!
Tudo se transforma!
Realizam-se sonhos,
Bordam-se flores,
No caminho sulcado dos amores.

Ventos macios, coloridos,
Com gosto de bonança,
Esvoaçam os cabelos da manhã,
Perfumando rios e matas.
O riacho marulha um canto de paz.
O amor se faz!

Tudo se agita, se multiplica,
Ganha vida, viço e cor,
Enfeitado pelos gorjeios da passarinhada,
Pelo zumbido das abelhas,
Pelo incansável trabalho das formigas.

Tudo renasce,
Cresce e aparece no círculo da vida.
A natureza se multiplica em berços...
Em rebentos alvissareiros,
Nos canteiros dos jardins,
E nos olhos que há em mim.

Nos meus cantos,
Também é primavera.
Escondo-me na semente,
Transmudo-me na alegria de viver.

VIAGEM


VIAGEM
(Genaura Tormin)

Vida!
Caminhada curta,
Efêmera,
Chama de vela.
A ordem é ser
Ou tentar ser feliz
A cada instante.

Felicidade não é um destino.
É obra de arte,
Uma viagem.
Os momentos são únicos!
Não voltam mais!

Alados por pinceladas de imaginação,
Podem ser mágicos!
Marcos de saudades.

Ame sempre,
Como se nunca tivesse sofrido.
Trabalhe com prazer.
Cante as dores e cultive a paz.

Sorria sempre!
O sorriso enobrece, encanta....
Sorriso é prece!
É Deus dentro da gente!

Encante-se com as pessoas!
Passe-lhes o que há de maravilhoso em si:
O jeito maroto,
O olhar trigueiro,
A maneira manhosa,
Assanhada, faceira...
As gargalhadas e até as lágrimas.

Não é vergonha,
É sensibilidade,
Autenticidade...

Sem que se esforce,
Sem que perceba,
Estará sempre
Entre os parceiros da alegria,
Caminheiros da amizade,
Partícipes de uma linda viagem
Chamada FELICIDADE!
Vida!
Caminhada curta,
Efêmera,
Chama de vela.
A ordem é ser
Ou tentar ser feliz
A cada instante.

Felicidade não é um destino.
É obra de arte,
Uma viagem.
Os momentos são únicos!
Não voltam mais!

Alados por pinceladas de imaginação,
Podem ser mágicos!
Marcos de saudades.

Ame sempre,
Como se nunca tivesse sofrido.
Trabalhe com prazer.
Cante as dores e cultive a paz.

Sorria sempre!
O sorriso enobrece, encanta....
Sorriso é prece!
É Deus dentro da gente!

Encante-se com as pessoas!
Passe-lhes o que há de maravilhoso em si:
O jeito maroto,
O olhar trigueiro,
A maneira manhosa,
Assanhada, faceira...
As gargalhadas e até as lágrimas.

Não é vergonha,
É sensibilidade,
Autenticidade...

Sem que se esforce,
Sem que perceba,
Estará sempre
Entre os parceiros da alegria,
Caminheiros da amizade,
Partícipes de uma linda viagem
Chamada FELICIDADE

EQUILÍBRIO



EQUILÍBRIO
(Genaura Tormin)

Evoluir
É ser inteiro, autêntico,
Despojado, verdadeiro,
Dono de si mesmo.
É semear o bem,
Namorar a vida,
Encantar-se com a chuva,
Com o verde da esperança,
Do amor, da flor,
Do mundo!

Otimismo, emoção,
Temperos da jornada.
Há tantos caminhos,
Veredas e estradas...
Nem entorpecidos
Nem hostis os atos.
O equilíbrio é o ideal.
O amor leva à felicidade!
Singularidade de olhar,
Ternura de afago
Constroem rumos e vidas.

A emoção é roupagem da alma,
E a essência é holística.

HERANÇA


HERANÇA
(Genaura Tormin)

Aos que amo, amei e amarei,
Deixo por herança,
Essa minha esperança,
Essa vontade de querer viver.
Deste meu jeito de moleca,
Levada da breca, arteira, traquina,
Restará saudade.

Deixo a minha crença,
O sonho aceso, a fé,
E o verso inacabado.
Ainda por herança,
O meu encanto,
O meu talento,
E até o gênio forte,
Atrevido, valente,
Que me fez diferente,
Caminheira sem rastros,
Mas um ser contente.

SOU TODA ALEGRIA


SOU TODA ALEGRIA
(Genaura Tormin)

Sou sonhadora!
Vivo fantasias,
Faço poesias...
Rimo um gorjeio de pássaro
Ao barulho da ventania...
Assim,
Sou toda alegria!

Canto o amor,
Defendo a harmonia.
De tudo,
Sou aprendiz.

Colo metáforas,
Faço catarse
Num risco de giz.
O que importa
É ser feliz!

INDIVISIBILIDADE


INDIVISIBILIDADE
(Genaura Tormin)

Quando tu partires
Irei contigo.
Levarei o aconchego da noite
Para te fazer feliz.

Serei suave,
Feito o balanço do mar,
Para te amar,
Amor.

Irei contigo
Aonde fores.
Tuas pegadas
Serão as minhas pegadas,
E eu te amarei
Em todos os momentos.

Não choraremos
Porque as lágrimas secaram
Com o sol da manhã,
Fazendo-nos fortes
A qualquer embate.

Irei contigo
Até o infinito,
Onde tudo é perfeito,
Sem dor,
Sem mutilação,
Sem medo.

Irei contigo,
Amor,
Porque faço parte de ti,
E tu és tudo
Que sempre cultivei em mim.
Assim,
Seremos indivisíveis,
Unos e eternos.

ESCRITURA DO TEMPO


ESCRITURA DO TEMPO
(Genaura Tormin)

Acuada pelos preconceitos,
Cavalgo no dorso da vida.
Rasgo sonhos para engendrar versos.
Alongam-se pelejas.
Cálida, ainda estou
A semear afeto e lágrimas.

Escritura do tempo,
Vou registrando os dias.
De instantes vazios
E certezas incógnitas,
Reconstruo a vida.
Teço a síntese de saudades fugidias,
Argamassa de sonhos,
E guardo no peito
Os retalhos do que sou.

No rosto,
O sorriso, a coragem
E o encantamento de viver.
Em estado de paixão
Tento superar as perdas
E o amor ainda se faz em mim.

EXTRATO


EXTRATO
(Genaura Tormin)

Extrato

Sinto saudades!
Uma saudade própria,
Latejante,
Quente e profunda.

Uma saudade
Que se escancara em gritos,
Rasga dimensões,
Estampa cacos,
Cega os olhos,
Sufoca os sentidos,
Deixando o cérebro confuso,
Inerte,
Ensandecido.

E, no entanto
Há consciência
E o desejo se agiganta
Numa enorme vontade de viver.

BANDEIRA DO OTIMISMO


BANDEIRA DO OTIMISMO
(Genaura Tormin)

Não deixem que cale
O amor que alenta,
A dor que me faz viva,
A ternura do meu peito
E todo esse jeito
Que a vida me deu.

Não deixem
Que o meu canto morra,
Que feneça o meu sorriso
E parta de mim
O compromisso
Desta bandeira de otimismo,
Deste meu desejo de querer viver.

TEU ANIVERSÁRIO



TEU ANIVERSÁRIO
(Genaura Tormin)

Neste aniversário,
Aceita a festa que não posso dar-te,
O jantar à luz de velas,
O vinho francês,
O perfume dos alabastros,
A beleza dos astros...

Embrulhado para presente,
Seguirá o meu amor,
Identificado por um cartão vermelho.
Ao vivo e em cores,
Os enleios das minhas mãos
Roçarão teu corpo “caliente”.
E o meu beijo encontrará o teu,
Porque és a grande paixão,
A maior razão da minha vida,
O acalanto do meu coração.

CORPO MOLHADO


CORPO MOLHADO
(Genaura Tormin)

Quero sentir a tua essência,
Permear-me nos teus cantos,
Esconder-me nos teus braços,
Decantar todos os traços
Deste desejo indomável.

Quero esse querer querido,
Esse amar sofrido,
Que maltrata, exalta,
E me dá prazer.

Quero envolver-te
Neste fogo que me queima,
Na loucura que me invade,
Ao contemplar o teu corpo molhado,
O desejo assanhado
E o gosto do teu beijo
Na minha boca.

ESSÊNCIA LIBERTA


ESSÊNCIA LIBERTA
(Genaura Tormin)

De asas quebradas,
A ave não pode voar.
O invólucro é prisioneiro,
Mas a essência é liberta,
Bandoleira...

Crescem-lhe asas perfeitas,
Imaginárias.
As peias se partem na amplidão.
Desatam-se os laços!
Ilimitado é o espaço
Para voejar versos,
Soltar a emoção
E sentir-se uma estrela andeja.

A MENTE NÃO ESTÁ NOS PÉS


A MENTE NÃO ESTÁ NOS PÉS
(Genaura Tormin)

Quero dizer a vocês,
Que a mente não está nos pés,
E aqui, na minha cadeira,
Trabalho por mais de dez.

Quem me conhece, já sabe
Da minha capacidade,
Não me curvo por besteira
E luto com hombridade.

Mato a cobra e mostro pau.
Medo, não tenho não.
Já mandei prender bandidos,
De estuprador a ladrão.

Lembro-me do grande Franklin,
Dos Estados Unidos, presidente,
Em tempos reacionários,
Exemplo pra muita gente.

Por isso estou aqui,
Em condição inusitada,
Pois sei que neste Planeta,
Não tem uma delegada

Numa cadeira de rodas,
Que seja capacitada,
Faça inquéritos e flagrantes
Numa Especializada.

Mente sã é corpo são,
Por isso não tenho nada,
Sinto-me com pernas fortes,
Numa cadeira sentada.

Na rua dirijo carro,
Faço compras e viajo,
Trabalho, leciono e nado.
É só questão de estágio.

Para os que não me conhecem,
É essa a informação,
Moradores da cidade
E outros que aqui estão.

20 de mar de 2009

BOLAS DE GUDE



BOLAS DE GUDE
(Genaura Tormin)

Quero gravar
Todas as agonias.
Quero chorar
O pranto da saudade
E a tristeza dos momentos.

Quero ser os acordes
E um violino
E na fantasia
Jogar a tristeza fora.
Quero alçar meu vôo,
Cultuar a liberdade dos meus cantos,
Do meu pranto.

Quero que as lágrimas
Sejam bolas de gude,
E com elas sorrir e cantar,
Sem ter que chorar por dentro.

Quero fazer um brinde,
Enaltecer a verdade,
Sem ver que ela nunca existiu.

Mas,
Se tudo fosse verdadeiro,
O cometa perderia o espanto
E a alma,
Esgueirada em gargalhadas,
Rasgar-se-ia em bandeirolas
Para enfeitar a vida.

PIROMANIA


PIROMANIA
(Genaura Tormin)

Quero gritar
E me completar no silêncio
Dos meus medos.
Fazer uma torre
Dos nervos rotos,
Calcinados, sangrados de desejos.

Contorcer as angústias
Nos rodopios de bailados mortos,
Na loucura estridente,
Tão inclemente,
Desta piromania
Que me embala,
Me cala,
Mas me faz viver.

Quero mostrar
A úlcera do meu ventre,
O vazio do meu útero!
Quero ser fêmea presente,
Incendiária de amor.

MINHA MÃE



MINHA MÃE
(Genaura Tormin)

Minha mãe!
Quanta saudade!
Brado o seu nome
E tenho o eco por resposta.

O telefone do céu está mudo.
Há muito tempo vivo órfã!
Preciso de um colo
Para descansar meu corpo,
Preciso de um ombro
Para chorar.

Mãe,
Preciso de você para me guiar!
Queria dar-lhe o carinho que guardei.
Dizer da vida,
Das dores, dos amores
E das quedas que levei.
Estou indefesa,
Uma criança outra vez.
São tantas as queixas...

Mãe,
Sua presença me devolve a paz.
A silhueta etérea me acompanha
E sob as suas asas sou amada.
Mas é sempre em sonho
E você me deixa quando alguém me toca.
A claridade quebra o encanto.
E ainda por um instante, deixa-me fitar
Os olhos azuis de quem eu amo tanto!

LAMENTO



LAMENTO
(Genaura Tormin)

Serei o grito do vento
E a tristeza dos que se foram.
Desafinadas as cordas,
Esquecerei a melodia,
Queimarei os versos,
Cultuarei as cinzas
Restos de alegria.

No outono,
Com um sopro quente,
Afinarei as cordas
E outros versos farei.

Cantarei o desalento do tempo,
E vestirei máscara de palhaço
Para gargalhar a vida.

E os desejos
Alcançarão o infinito,
Colados nas asas das pandorgas,
Protótipo de uma nova liberdade.

ENTREGA



ENTREGA
(Genaura Tormin>

É noite
Nos meus cantos e recantos.
Muita nostalgia,
Muita agonia....
Descubro-me sozinha.

Apenas as mariposas,
Fazem-me companhia.
A dança frenética,
Em doce melodia,
Adorna a pouca claridade.

Lá fora,
A sutileza do vento,
As intempéries do tempo
Numa fúnebre ventania.

Cartas na mesa,
Jogo no chão.

RELÓGIO MALVADO


RELÓGIO MALVADO
(Genaura Tormin)

Ontem
Te fiz a última poesia.
Falei tanto do meu amor!

Ontem
Ouvi tua música preferida
E tua imagem se fez profunda em mim.

Mergulhei
Em cada canto do teu corpo
E me deixei ficar,
Embriagada
Na ternura dos teus braços.

Ontem
Tive o prazer de ter-te ao meu lado,
No tapete verde de um gramado,
No êxtase sem fim
De beijos e abraços,
Onde éramos as vítimas
De um amor cumpliciado,
Astuto,
Rebelde
E ouriçado.

Quando explodia em mim o coração,
E o sentimento
Sem amarras me vencia,
Eis que o despertar do relógio no criado
Devolve-me à realidade,
Quando pude perceber,
Que apenas,
Havia eu SONHADO.

ADVERTÊNCIA



ADVERTÊNCIA
(Genaura Tormin)

Fale aos que passarem,
Diga aos que vierem
Que o vento levou o amor.
Era uma pandorga de papel,
E no céu, desapareceu.

O amor existiu, e foi lindo,
Matizado de fragrâncias,
Colorido de ternura.
Tinha sabor de festa...
Mas perdeu-se por ínvios caminhos,
Destruindo a fé,
Esfacelando a vida.

Diga das poesias,
Das flores que enganaram a alma
E dos lamentos
Que se misturaram no ar.

Diga da dor
Aos mendigos que passam,
Aos seresteiros da madrugada,
Aos pássaros que cantam...
Diga dos olhos marejados,
Da ferida aberta que nunca sara!

Diga que a dúvida matou o querer
E a essência exala,
Ficando em tudo
A saudade de uma pandorga perdida.

ESQUECIMENTO



ESQUECIMENTO
(Genaura Tormin)

O mundo desaba
Sem piedade,
Sem compaixão.

O tempo diminui,
A distância cresce,
O amor esquece
Tantas confidências,
Tantos momentos
De felicidade.

Nada faço.
Nada resta.
Imagem apagada,
Final de festa.

SOBRA



SOBRA
(Genaura Tormin)

Os desejos não latejam,
Não queimam,
Não ouriçam fantasias mortas.

Apenas uma
Parede branca,
Um elo solto,
Um laço roto
E uma lembrança gasta.

ISSO E VIDA!


ISSO E VIDA!
(Genaura Tormin)

Vida
Cheia de percalços,
Versos e reversos,
Muitos obstáculos.

Muitos desafios
Fazem-nos guerreiros,
Equilibristas de um circo
Chamado destino.

Estamos sempre a cozer,
Remendar falhas,
Cerzir buracos.

Vida
É uma colcha de retalhos.
Às vezes de um colorido vivo...
Outras, matizados,
Desbotados,
Envelhecidos.

Momentos
Sonhados, queridos,
Mas também sofridos,
Engastados no frio silêncio
Que arqueja mórbido, cansado...

EVIDÊNCIA



EVIDÊNCIA
(Genaura Tormin)

No silêncio,
Lamentos tardios
E escusas do que se foi.

O cérebro confunde
Os desejos esquecidos.
O tempo está parado,
O vento não encanta,
Como outrora,
Porque as flores
Já não exalam perfumes.

Não há espera...
Ela não é necessária.
Os dias são normais.
O querer se foi
Com o entardecer
Nas chuvas de março.

Mesmo assim,
Eu sinto frio.
Tudo está tão só.
No silêncio,
As respostas de perguntas
Feitas ao nada.

COMEÇO DO FIM


COMEÇO DO FIM
(Genaura Tormin)

O tempo está inerte,
O sorriso não vem
E pulsa descontrolado
O coração cansado.

Não há vida no ar,
Nem espera,
Porque é o limite da hora,
O começo do fim.

O querer morreu.
Esfacelado está o sentimento
No vazio do nada.
No silêncio,
Apenas
Uma lágrima de mulher.

POETA


POETA
(Genaura Tormin)

Ser poeta,
É viver todos os momentos,
Cantar sentimentos,
Ter sempre “olhos de primeira vez”.

É voar
Nas caudas dos cometas.
É ser dono das estrelas,
Da natureza,
Do infinito,
E ao mesmo tempo,
Não ser dono de nada.

Ser poeta,
É ser METAcoração,
Sentir gosto no sofrer,
Amar a solidão.

Ser poeta,
É conversar com a chuva.
É ser louco ou lúcido
Quando precisar.

É não ter limites,
Driblar barreiras,
Ultrapassar divisas,
Alar o mundo feito borboletas.

Ser poeta,
É deixar rolar o sonho
Maior do que a estrela.

AGONIA MUDA



AGONIA MUDA
(Genaura Tormin)

Um tédio ambulante caminha pelo quarto,
Impregna o ar que circula,
Escorre pelas paredes solitárias.

Em tudo,
Um gosto amargo de dor.
Pasmada, permaneço imóvel.
Em cacos,
Desfaz-se o sentimento.
Indômita, ainda tento resistir.

Na tela indolor do tempo,
Não há bolo de despedida,
Apenas lágrimas que molham
Meu rosto assombrado,
Desenhado na mente fragilizada.

O silêncio se faz
Em súplicas inaudíveis.
E o cutelo da morte
Ameaça golpear-me a alma,
Matar o que restou de mim.

Perdidos,
Estarão os decretos do amor,
As confidências do que sou,
Do que fui...
Tudo,
Tão precoce!

Não há clemência,
Para tão dura sentença.
Agonizam em mim
Os estertores do fim.
Nem mais sei quem sou.

SEM SOLUÇÃO


SEM SOLUÇÃO
(Genaura Tormin)

Brinquedo quebrado,
Imagem esquecida,
No céu,
Ao léu,
Na estrada dolorida
Desta ingrata vida.

Momentos roubados,
Acalentados
No peito da agonia.

Fim da estrada,
Porta fechada,
Noite perdida,
Sem saída,
Sem prospectos,
Só solidão.

Eis-me de novo
A esperar sempre,
Sem solução.

POEMA TRISTE


POEMA TRISTE
(Genaura Tormin)

Quero fazer um poema triste.
Que não fale de amor,
Nem de festa,
Nem de flores.

Quero falar de mim.
Desta solidão,
Jeito único,
De postura estática,
Interminável,
Irreversível.
Deste calafrio
De ossos em desuso.

Quero falar
Deste sufoco no peito,
Sorriso sem jeito,
Impotência que cerceia,
Feito peias
Ou sereias.

Amarras
Que escravizam,
Matam
Ou sublimam,
Fazendo incursões ao infinito,
Melhorando este meu espírito,
Para bailar
Noutras fantasias.

REFÉM DE MIM MESMA


REFÉM DE MIM MESMA
(Genaura Tormin)

Encolhidos em mim,
Jazem as tristezas,
Os amores todos,
Os restos de afeto,
De aconchego, de ternura...

No meu casulo,
Minhas saudades
Abrandam e abrasam
Os desejos refreados,
Ainda molhados de sonhos.

As pedras feriram-me os pés!
Os laços foram desfeitos.
A caminhada revela
A fotografia singela
De um corpo mutilado,
Um coração machucado
E uma bandeira a defender.

Agiganta-se a fé
Nos credos que professo.
De aço me revisto inteira.
Sou refém de mim mesma.
Um soldado aguerrido
À frente da trincheira.

NESGAS DE SAUDADE


NESGAS DE SAUDADE
(Genaura Tormin)

Quanta saudade daquele tempo!
Dos verdes anos lá na fazenda...
Do sol nascendo na serra,
Qual bola de fogo,
Dissipando a escuridão.
O mugido do gado,
O copo de leite no curral...
Ah, quanta saudade!

E o dia da pamonhada,
Dos mutirões...
Todos ouriçados,
Parentes e vizinhos,
Amigos aos punhados.

Verdes campos.
Natureza em festa,
Onde as gotas de orvalho tremulavam
Nas cores do arco-íris,
Aos albores da aurora,
Orquestrada pela passarinhada.

As espigas de milho,
Feito bonecas de cabelos ruivos,
Ao açoite do vento,
Dançavam no verde salão do milharal,
Regidas pelo alarido das maritacas.
Era uma tela pintada nas cores da esperança,
Por isso era tanta bonança...

Laboriosos,
Todos compartilhavam alegres, festivos,
Cantando modas de viola,
Enquanto preparavam as roliças pamonhas,
De doce, de sal,
À moda, com lingüiça, pimenta e queijo...
O paladar aflorava o apetite,
Com o cafezinho quente,
Torrado na roça e moído na hora,
Do jeito lá do sertão.

Quanta simplicidade,
Quanta vida!
Quanta solidariedade
Capaz de aumentar afeto,
Enflorar corações
No laço gostoso da amizade.

COLORAÇÃO



COLORAÇÃO
(Genaura Tormin)

O dia chegara colorido,
E foi tão bonito!
O sol brincava de esconder-se nas colinas.
Tudo era de “faz-de-conta”.

Vi chegar a luz,
Chegarem as nuvens
Com embrulhos tamanhos,
Pendurando-os nas paredes do dia.

A alegria viera junto.
Gritei tão alto,
Tão alto,
Que me tornei em eco.

O céu partira-se
Em pedacinhos curtos,
Que aos poucos formara um todo
A que chamei de AMOR.

Em festa,
Os pensamentos dançavam,
E, na fantasia,
O mundo era fraterno.

Brinquei com a roupagem da tarde,
Esmaecida em belo arco-íris.
Descobri caminhos pintados,
Sorrisos escancarados,
E vi que o pássaro molhado
Cantou feliz,
Quando a noite chegou.

MEDITANDO



MEDITANDO
(Genaura Tormin)

Dia comprido,
Sem sol,
Sem flores,
Sem amores.

Frio no tempo,
Cansaço,
Loucura,
E na alma,
O muito que apavora.

Em tudo,
A saudade que queima,
A lâmina que fere,
O frio que aumenta,
A lágrima que cai
E a dor do irreversível.

19 de mar de 2009

RECONSTRUÇÃO



RECONSTRUÇÃO
(Genaura Tormin)

Desmorona o castelo,
Esfacela-se a vida!
O querer arqueja no tempo.
Há um gosto de morte no ar.

Dos escombros
Emerge um coração,
Reconstrói a obra,
Dá formas,
Essência
E vida.

Os olhos brilham,
O peito pulsa,
E a fêmea aparece,
Rebelde,
Ouriçada,
No cio,
Conquistada.

De novo,
O amor se vai,
A mágoa fica,
A vida passa.

Reconstruir
É a profissão,
Ainda que o castelo
Não tenha teto.

NOVOS CICLOS


NOVOS CICLOS
(Genaura Tormin)

Etapa finda!
Passou!
Porta fechada.
Ciclo encerrado.
Esqueça!
A ordem é seguir adiante,
Não chorar o leite derramado.

Sofrer pra quê?
Deixe que o novo aconteça!
Abra espaço,
Prepare a mente!
Seja contente!

Cresça e apareça
Firme e forte!
Outra empreitada.
A vida é um jogo!
Não se ganha sempre.

A perda enrigece
A couraça da coragem,
E o sofrimento
Fortalece o equilíbrio
Para outros afazeres,
Outros amores,
Novos ciclos,
Vida nova!

VULTO DE MULHER


VULTO DE MULHER
(Genaura Tormin)

Em tudo que fiz
Deixei um pouco de mim:
Um sorriso,
Um gesto,
Um olhar...

Não fiz muito,
Eu sei.
Mas,
Os poucos fragmentos
Ecoarão no ar,
Cantando a saudade
E o meu jeito de amar.

Por isso,
Serei tão simples
E partirei tão sutil,
Tão sozinha,
Que no silêncio,
Serei,
Apenas,
Um vulto de mulher.

DESINTEGRAÇÃO



DESINTEGRAÇÃO
(Genaura Tormin)

Sou o linguajar mudo
Dos que já não podem falar.
Sou parte dos que olham sem pedir.

Sou a desintegração
Brincando de ninar.
Sou o sentimento que não persistiu
Nos longos braços da espera.

Sou os gritos sem eco
No desconexo
De uma vida inteira.

MENSAGEM


MENSAGEM
(Genaura Tormin

Nos muros da vida
pichei a mensagem,
detalhei a imagem,
rasguei preconceito
e despi a alma.

Nos muros de mim,
enfrentei a navalha,
venci a batalha,
ergui a medalha
e me tornei campeã.

O Mar e a Rocha





O mar se entrega à rocha sem receios
e a cobre com espuma virginal.
E lhe acarinha todos os permeios,
e a ama, como nunca amou igual.

Lhe conta dos seus mais sutis anseios,
lhe fala desse amor, já outonal...
E a cerca com seus mil e um meneios...
E lhe oferece todo o seu caudal.

Porém, sempre centrada em sua essência,
ela não se permite a experiência
de se entregar aos braços desse amor.

E perde um oceano de venturas,
e mais e mais conhece as amarguras,
de quem jamais permite su'alma expor!


- Patrícia Neme -

ARQUITETA DE MIM


ARQUITETA DE MIM
(Genaura Tormin)

Vou reinventar a vida!
Fazer consertos,
aplicar remendos.
Prenha estou de disfarces
e esgueiram-me pelos poros
a plangência do tempo,
restos de batalhas
que se reiniciam sempre.

A incoerência dos retalhos
fragmentam-se pelos dias.
Recolho os estilhaços.
Sou enigma,
sou incógnita no existir!
Fabrico fantasias
e metáforas.

17 de mar de 2009

KONSTANTINOS KAVÁFIS



Κωνσταντίνος Πέτρου Καβάφης [no alfabeto grego]
(Alexandria, 29 de abril de 1863 — Alexandria, 29 de abril de 1933.)

Constantine P. Cavafy (Kavafis), nasceu em Alexandria (Egipto) em 1863.
O seu pai morreu em 1870, deixando a família em precária situação financeira.
A sua mãe e os seus seis irmãos mudaram-se para Inglaterra dois anos depois.
Devido à má administração dos bens da família por parte de um dos filhos,
a família foi forçada a regressar a Alexandria, na pobreza.

Os sete anos que Kavafis passou em Inglaterra foram importantes na formação da sua sensibilidade poética.
O seu primeiro verso foi escrito em inglês (assinando 'Constantine Cavafy'),
e o seu subsequente trabalho poético demonstra uma familiaridade substancial com a tradição poética inglesa, em particular as obras de Shakespeare, Browning e Oscar Wilde.

Os anos que se seguiram, de regresso a Alexandria, representaram tempos de pobreza e desconforto, mas revelaram-se igualmente significativos no desenvolvimento da sensibilidade de Kavafis. Este escreveu os seus primeiros poemas - em inglês, francês e grego - durante este tempo, em que aparentemente também teve as primeiras relações homossexuais.

Tendo trabalhado durante 30 anos na Bolsa de Valores Egípcia, Kavafis permaneceu em Alexandria até à sua morte, que ocorreu em 1933, por motivo de câncer da laringe. Sabe-se que recebeu a sagrada comunhão da Igreja Ortodoxa pouco antes de morrer e que o seu último gesto foi desenhar um círculo numa folha branca e depois
colocar um ponto no meio do círculo.

Pelos contornos da sua história fragmentária, poder-se-ia dizer que a vida mais rica de Kavafis seria a vida interior sustentada pelas suas relações pessoais e pela sua criatividade artística.
Embora Kavafis tenha conhecido inúmeros homens das letras durante as suas viagens a Atenas, não recebeu o total apreço dos letrados atenienses senão aquando da publicação da sua colectânea de poemas em 1935. Parece provável que a sua importância tenha permanecido relativamente irreconhecida antes da sua morte precisamente pelas mesmas razões que hoje o estabelecem como um dos mais
originais e influentes poetas gregos do século XX: o seu irredutível desapreço,
na idade adulta, pela retórica que então prevalecia entre os poetas da Grécia continental; a sua quase prosaica frugalidade no uso de figuras de estilo e metáforas; a sua constante evocação de ritmos falados e coloquialismos;
a sua franca e avant-garde abordagem dos temas homossexuais;
a sua re-introdução dos modos epigramático e dramático que haviam permanecido largamente abandonados desde os tempos helenísticos;
o seu frequentemente esotérico mas brilhantemente vivo sentido de história;
a sua dedicação ao Helenismo, aliada a um estatuo cinismo relativamente à política; o seu perfeccionismo estético;
a sua criação de um mundo ricamente mítico durante a sua idade adulta.
Estes tributos, possivelmente pouco valorizados na sua época, hoje estão indubitavelmente entre os que lhe garantirão um lugar duradouro na tradição literária do mundo ocidental.

Um dos poemas de Kavafís que mais gosto, onde percebe-se por suas ansiosas metáforas, sua angústia e sofrimento, ocasionados pela forte discriminação,
da época, a homossexualidade do autor.


Muros


Sem piedade e sem pudor, sem dó e sem cuidado
à minha volta espessos muros tão altos quem teceu?

E eis­‑me agora aqui na sorte a que fui dado,
em mais não penso: não me sai da idéia o que aconteceu.

Lá fora há tanto que fazer - tudo ruído!
E, se estes muros construíram, porque não dei por tal?

Não ouvi de pedreiro nem voz nem ruído
E sem saber fiquei fechado, sem vista e sem portal.

Konstantinos Kaváfis


mms

SYLVIA ORTHOF



Sylvia Orthof nasceu no Rio de Janeiro em 1932, e ali mesmo faleceu em 1997.
Adorava ser carioca.

Estudou teatro, mímica e desenho em Paris e ao regressar para o Brasil, fez de tudo nas artes dramáticas: escreveu, dirigiu, fez cenários e figurinos e tantas outras atividades.

Enquanto se dedicava de corpo e alma ao teatro, Ruth Rocha a convidou e a convenceu a escrever textos infantis. No começo, ela achou que não iria conseguir, mas que nada! Pegou gosto e escreveu mais de 120 livros. Muitos deles foram premiados com prêmios importantíssimos, inclusive o Jabuti.



Filha de um casal de judeus austríacos que deixou Viena entre as duas guerras, para buscar paz e trabalho.
Filha única de imigrantes pobres, teve uma infância difícil. Aprendeu a falar primeiro alemão e falava português com sotaque e errado até a idade escolar.
Aos 18 anos, foi estudar teatro em Paris. Um ano depois, voltou ao Brasil e trabalhou como atriz no Teatro Brasileiro de Comédias, em São Paulo (o TBC), e, no Rio, atuou com grandes nomes do teatro e da TV.
Escritora muito amada, com a sua irreverência poética inesquecível, publicou mais de 100 livros para crianças e jovens e teve 13 títulos premiados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil com o selo Altamente Recomendável para Crianças.
Sylvia morreu em 1997, mas até hoje exerce grande influência sobre um grande número de autores infantis.

Entrar numa história de Sylvia Orthof é encher os olhos de susto, mas não um susto de tremer perna ou bater queixo.
O susto que as histórias de Sylvia dão na gente são carregados de perplexidade, arregalam a gente por dentro, dão largura no pensamento.



Ganhadora do Prêmio Jabuti, por A Vaca Mimosa e a Mosca Zenilda (1997),
Sylvia teve vários trabalhos adaptados para o teatro e quebrou tudo quanto é estereótipo na literatura infantil brasileira, com o seu texto desobediente, esmerado, abusado, feito de riso, provocação e arrepio.
Afinal, a criatividade de Sylvia Orthof jamais coube em rótulos.
Como ela mesma já disse, as histórias clássicas da literatura infantil sempre tiveram um ponto de vista muito machista. “Ninguém pergunta à Cinderela se ela quer casar com o príncipe.
Mas, ao mesmo tempo, a autora defendia a leitura dos contos tradicionais,
desde que houvesse uma reflexão.
“Se Chapeuzinho Vermelho tem tanta força até hoje, é porque tem o seu valor.
Só precisamos tomar cuidado para não apresentarmos essas histórias com
uma mensagem moralista.
Vamos discutir um pouco. Por que não podemos sair do caminho e procurar
um atalho na vida? Será que em todo lugar há um lobo?
E será que devemos ter tanto medo dos lobos?”, questionava.



Além de questionar velhos conceitos, Sylvia Orthof sempre vivia do modo como escrevia: espalhando encantamento por onde passava.
Autora de um dos maiores clássicos da literatura infantil brasileira, Uxa, Ora Fada, Ora Bruxa (1985), que mostra, com estilo único, os dois lados de todos nós, Sylvia era apaixonada por jardins e flores. Aliás, a sua favorita era a Maria sem Vergonha. “Gosto muito dessa flor. Lá em casa, temos uma escada, no jardim.
E as flores não quiseram nascer no canteiro. Não foram exatamente as marias, mas também são sem vergonha. Elas nasceram por entre as pedras do muro. Sempre assim. Nascem nos lugares mais impossíveis.
Aí um rapaz queria cortá-las das pedras, mas eu reagi: - Não faça isso.
Elas lutaram tanto por esse lugar”, disse Sylvia, numa entrevista.
E acrescentou: “O jardim é uma coisa que precisa de atenção, como os livros.
Mas não gosto daqueles jardins muito cuidados.
Podados demais. As plantas, como as histórias, têm direito de espreguiçar onde quiserem”. E as histórias da Sylvia continuam espreguiçando, ou melhor, continuam despertando leitores de toda idade.



Fontes:
Rosa Amanda Strausz
E Netlog

SEGREDO



SEGREDO
(Genaura Tormin)

Quero apenas
meu olhar trigueiro,
meu jeito feiticeiro,
uma música clássica,
um copo de vinho
e um pedaço de estrela
para te dar,
te conquistar
e te fazer meu homem.

Brisa soprando,
cabelos desalinhando
e a lua testemunhando
te ensinarei o caminho,
te entregarei o troféu.

No silêncio,
teremos nuvens por leito,
rasgaremos preconceitos,
trocaremos enzimas,
uniremos genes,
pra desvendar o segredo.

FANTOCHE



FANTOCHE
(Genaura Tormin)

O mundo está parado.
O cérebro inerte,
não pensa,
não reclama,
nem mesmo fala,
apenas existe.

Não tem vontades.
Elas não existem para ele,
pois é fantoche
e brinca de teatro.

Sorri,
chora,
e se extravasa em versos
a ver navios que passam.

A jornada é longa,
o caminho comprido
e o cansaço não pode chegar
ao palhaço que não para de rir,
porque é,
simplesmente,
um FANTOCHE CONVENCIONAL.

ESPERO-TE



ESPERO-TE
(Genaura Tormin)

Espero-te,
porque sei que virás!
Lindo,
como o vejo em pensamento.

Tu, que me dás saudades,
tu, que não conheço,
serás meu,
somente meu.

A ti,
contarei dos dias de vigílias,
e falarei das noites de saudades.

Sei que tu virás um dia,
e meu mundo
será de muitas cores.

Tu,
meu amor,
serás realidade,
eu sei.
E é por isso,
que não me canso
de te esperar sempre,
no calor dos dias,
no frio das madrugadas...

Quando chegares
tudo será dourado,
cheio de encanto,
sem pranto.
E essa saudade louca,
que de ti eu sinto,
será esquecida
com a tua presença.

Tu,
insubstituivelmente tu,
serás meu!
Serás ternura!
Quando, então,
eu serei tua, amor!

DESENCONTRO


DESENCONTRO
(Genaura Tormin)

De saudade,
extravasei-me em lira,
tornei-me eco
pela noite escura.

Corri pelas caladas,
venci distâncias
e senti-me junto a ti.

O peito em ânsia,
a voz em desconexo,
o cérebro parado,
eu esperava imóvel
a tua presença,
na gostosura
de saber-te junto a mim.

E eu te amava,
mais ainda...

Mesmo assim
te foste,
sem perceberes
que eu estava ali.