14 de mar de 2009

PLANTIO


PLANTIO
(Genaura Tormin)

Deus,
Senhor dos mares e montes,
das flores e fontes.
Senhor da vida!
Senhor dos meus versos,
do meu canto.

A Ti agradeço
a força para a jornada,
a emoção da semeadura,
a alegria da colheita.

Ao celeiro,
recolho os frutos.
Renovo a fé
no trabalho justo,
na divisão do pão
e do amor fraterno.


ERVAMOR


ERVAMOR

Do paralelepípedo
a planta
plúrima
parapétala
pulou
o parapeito
do primeiro
pavimento.

Púnico plágio plástico
ponta por ponta
espetou
espinhos
apopléticos
na parede.

Depredou a prumada
do telhado
tomou
um porre
de chuva
de prata.

Onde o braço do homem
não alcança
a planta
pôs o pólen
na concha
da calha
por conta
do amor

E deu à luz uma flor!

A. Estebanez

EPITÁFIO

aaaa
EPITÁFIO - I

Guardei banais segredos dos amores de criança
dos mistérios da infância ouvi apenas por tolice
contei parábolas de amor porque o próprio amor
predisse que na vida viveria só dessa lembrança
de reviver das cinzas de uma flor do apocalipse...

EPITÁFIO - II

E das águas correntes desse rio em minhas veias
de onde doce fluísse uma canção jamais ouvida...
Talvez de alguma fonte de desejos clandestinos
ou dos prazeres matutinos de profanas ladainhas
dos arcanjos decaídos de meus sonhos suicidas...

EPITÁFIO - III

Apraz-me então morrer dos místicos presságios
de quem padece lentamente da secreta liturgia
de reencontrar-me pelo acaso de um momento
em que a parte encantada de mim fosse a magia
desse feitiço de poder-me amar além do tempo...

EPITÁFIO - IV

E era tudo o que a alma não defesa pretendia...
E para muito além do que muito além de mim
onde jaz meu pássaro cantor de súbito abatido
concebido me fosse então morrer de desamor
se reviver de amor a mim não fora concebido...

A. Estebanez

ENTRE UM SONHO E OUTRO...


ENTRE UM SONHO E OUTRO...

Devo empreender uma viagem...
Mas não quero Londres e muito menos a Paris revisitada.
Lá as gentes são todas iguais a mim. Sangue bom à flor da pele
igual à minha ruim. Conheço a guarda real o big-bem o jardim.
Como se não houvesse periferia...
Como se houvesse algum jardim...

Devo empreender uma viagem...
Para um pouco mais além da minha praça tropical.
E, quem sabe, alcançar os meus sem-sonhos não vividos
que sempre estiveram na feira dos sábados de minhas mãos.
Como se houvesse sonhos...
Como se houvesse mãos...

Devo empreender uma viagem...
E comprar alguma gleba nos alvos prados das nuvens
construir com minhas mãos os meus sem-sonhos já vividos
entre pedras de granizo com penugens numa casa de algodão.
Como se houvesse sonhos...
Como se houvesse mãos...

Devo empreender uma viagem...
Para conversar com meus anjos já bem mais envelhecidos
sobre como é ficar ou então nunca ficar a um passo do paraíso.
Esse é um dos meus sem-sonhos refeitos com minhas mãos.
Como se houvesse sonhos...
Como se houvesse mãos...

A. Estebanez

ENIGMA DE ME VOLTAR


ENIGMA DE ME VOLTAR

Talvez eu volte corrimão de rios tortos
por onde vem beber a lua amedrontada...
Espírito cantor dos pássaros já mortos
sob os destroços de uma flor inacabada...

Caravelas de nuvens como pressupostos
do transporte por céu da luz embriagada...
Quiçá refaça-me de restos recompostos
com os pedaços de minha alma fatigada...

Talvez eu venha como o ser e a solução
como ave presa na lembrança da canção
ou como flores despojadas num jardim...

Talvez eu volte com um coração enfermo
e tente a morte retirar-me de mim mesmo
mas só eu mesmo posso me tirar de mim...

A. Estebanez

DEVANEIOS DA INSÔNIA


DEVANEIOS DA INSÔNIA

O que faz eterno o instante
em que você ressurge da noite
coroada a face de sorrisos
é o que me diz o amanhecer
dos lírios de como já nasci
de braços abertos.

Já falei a você das folhas que caíram
e do sofrimento levado pelo outono
deixado em cada sombra de seu rosto.

Já mostrei como do fruto renovado
o renascimento da vida é infinito
como o cio das cigarras é o destino
que se cumpre no silêncio da resina.

Você consome o canto e os sonhos
e os mistérios a esmo desvendados
e deixa esse sinal de impenetrável
ausência nas minhas mãos vazias...

Mas onde houver a paz dos rios
tangidos pelos caminhos bebidos
de minha boca, eu irei beirando
as margens inventariadas no rol
dos padecimentos...

Só me resta esperar que esta noite
você volte a embalar com beijos
meu sono perdido...

A. Estebanez

CENA DA INFÂNCIA...


CENA DA INFÂNCIA...

Ah, aquele cacto retorcido
sugando gotas de orvalho
caídas da boca da noite...

Criar borboletas noturnas
foi minha primeira ternura...

Havia prenúncio de trégua
e a esperança da primavera
naquela borboleta branca
(uma bandeira de paz)
hasteada no mastro da flor
vermelha...

A. Estebanez

BOA NOITE MEU AMOR...


BOA NOITE MEU AMOR...

Boa noite, meu amor!
O mar acalma na brisa
essa é a hora de voltar...
A brisa acalmar o vento
os sonhos o pensamento
que não cessa de gritar
nessa noite numerosa
entre as ondas sinuosas
dos caminhos do luar...

Boa noite, meu amor!
Sem os muros dos rochedos
sem nenhum setembro negro
sem mistérios nem segredos
sem os medos de voltar...

Boa noite, meu amor!
É destino o amanhecer
para a noite descansar...
Bom sonhar enquanto é tempo
bom de morrer ao relento
bom de renascer no mar...

A. Estebanez

CANÇÃO QUE VEM DE LONGE



CANÇÃO QUE VEM DE LONGE

Abro o álbum de retratos
sem querer todas as vezes
vivo de novo os retalhos
da vida que já vivi:
a criança
o brinquedo
a escola
a rua
a casa
onde nasci...

É o álbum que está velho.
Não fui eu que envelheci.

A cidade minha terra
minha terra infância minha
já alguém cantou por ti?
É o álbum que está velho,
não fui eu que envelheci...
Palmeiras
furando o espaço
muros velhos
guardando vozes
nas velhas casas...
De noite a lua
passeia na rua
rua de prata...
Pela cidade
vão violões
cantagalando
serenatas...

Parece que tudo morreu?
É o álbum que está velho.
Nada disto envelheceu...

A. Estebanez

CANTIGA PARA RITA MALUCA


CANTIGA PARA RITA MALUCA

Trazia uma flor na boca
um beijo amargo na mão
um anjo vesgo no corpo
no silêncio uma canção
como flauta ressurgida
da memória adormecida
nas masmorras da razão...

Calava, mas seus desejos
quando deuses rebelados
abriam seus lábios mudos
com segredos revelados
invadindo seus destinos
como barcos clandestinos
por mares não navegados...

Como escrava, era rainha.
Quando livre, era cativa...
De seu olhar despontava
a luz da aurora indecisa...
Sonho perdido nos passos
e nos braços sem abraços
uma esperança imprecisa....

E só amava em desvarios
sem prazer nem amargura
como quem amava além
da razão que há na loucura...
E vencia os seus mistérios
entregando seus impérios
por um resto de ternura!

A. Estebanez

CANTIGA EM FORMA DE SONETO PARA JACQUELINE


CANTIGA EM FORMA
DE SONETO PARA JACQUELINE

Há algo de você nas leves plumas
das aves que a visitam nas janelas
como algo que flutua nas espumas
do mar quando se deita sobre elas...

Algo de luz de ondinas luminosas
asas de malva e seda das libélulas...
Algo que sonha e fala como rosas
de algum pedaço da ternura delas..

Algo tão leve quanto inamovível
como aroma de brisa imperecível
que de tão breve ao imortal ajunta...

Profano como as almas das maçãs
entre os úmidos lábios das manhãs
iluminadas que não morrem nunca...

A. Estebanez
(Poema dedicado a Jacqueline Barrozo Rosa)

CÂNTICO DE AMOR NOTURNO


CÂNTICO DE AMOR NOTURNO

A hora é alta! E a noite é numerosa!
Morta é a lua no abismo da penedia!
Brame o oceano e freme a ventania
nos funerais noturnos da esperança...
E nem o amor pode fazer mais nada!
Deixei que minha vida se exaurisse
e que a escuna da alma se esvaísse
à bruma na memória da lembrança!

Oh, torrente assombrosa de paixões...
Não há rosa na vida que não sangre
ou lírio que viceje sobre o mangue
tinto de sangue ao látego do vento!
Divino amor dos deuses decadentes...
A aurora é luz na sombra iluminada
de uma opereta infrene e inacabada...
O amor saiu de cena antes do tempo!

Oh veredas lunadas! Oh candeias
do último luar que morre em mim
como luz entre as urzes do jardim
ou o ninho entre sarças encoberto!
Último cântico dos mortos sonhos
idos na flor ardente de Hiroshima!
Sonhar de amor que dói e desatina
e esvair-se como o oásis no deserto...

Procurei pelo amor por toda parte...
Debalde! Nem os cânticos dos rios
nem os porões escuros dos navios
puderam-me dizer onde encontrar!
No sonolento olhar das aves puras
na cruz da sepultura de meus pais
ou na honra sem dor dos samurais...
Não se vê onde possa o amor estar...

Quem sabe se nos idos medievais!
No princípio dos meios e dos fins...
Nos berçários azuis dos querubins
onde o amor é prodígio da paixão!
Mas amor sem o amor está banido...
Espada que não serve ao cavaleiro,
aventuras do barco sem barqueiro
pelos mares do amor sem a ilusão!
Há ainda os cadáveres das mães
jazidos na poeira dos escombros...
Há o peso dos corpos e os ombros
no fúnebre despejo das tragédias!
Ah, cântico de morte! Madalenas!
Chorai por esperanças prometidas
no jubiloso regresso das partidas,
o lado menos triste das comédias...

Chorai pelo destino de Desdêmona!
De Beatriz de Julieta e de Eurídice...
Cantai o amor maior do apocalipse...
Pelo amor de Jocasta! Oh corifeus!
Pela paixão dos astros e do eclipse...
Das prostitutas pelo amor proscrito
acolhido pelo amor de Jesus Cristo,
o Bem Supremo da paixão de Deus!

Deus! Depõe esse cântico de amor
nas veredas profundas do oceano!
Sustenta esse meu doce desengano
por esses mares de paixões e além...
Faça-me ânfora de um vinho novo.
Devolve a profecia ao seu profeta
e esse dom da poesia ao seu poeta
que tange às portas de Jerusalém!

Quero o amor infinito dos amantes
além dos fundos falsos das janelas
de onde o cio amoroso das gazelas
fertilize o deserto além do Hebrom...
O aroma dos vinhedos verdejantes
os amores do gamo sob as vinhas
guardadas pelo amante das rainhas,
como as rosas dos vales de Sarom!

A. Estebanez

CANÇÃO SONOLENTA


CANÇÃO SONOLENTA

Correm lentos noite e rio
nos atalhos entre o vento
aquecendo a mão do frio
nos retalhos do relento...

A brisa vem-me acalmar
de antigo ressentimento
e o vento me vem cantar
de tanto contentamento.

Na alameda à luz da lua
sob o céu além do tempo
nas poças d’água da rua
entre luzes me contemplo.

Futuro não tem passado
e o presente não tem fim.
Há em mim um outro lado
de um outro lado de mim...

Jaz-me a alma repousada
e uma flor calada em mim
como saudade encostada
no canteiro de um jardim...

A. Estebanez

CANÇÃO QUE VEM DE LONGE


CANÇÃO QUE VEM DE LONGE

Abro o álbum de retratos
sem querer todas as vezes
vivo de novo os retalhos
da vida que já vivi:
a criança
o brinquedo
a escola
a rua
a casa
onde nasci...

É o álbum que está velho.
Não fui eu que envelheci.

A cidade minha terra
minha terra infância minha
já alguém cantou por ti?
É o álbum que está velho,
não fui eu que envelheci...
Palmeiras
furando o espaço
muros velhos
guardando vozes
nas velhas casas...
De noite a lua
passeia na rua
rua de prata...
Pela cidade
vão violões
cantagalando
serenatas...

Parece que tudo morreu?
É o álbum que está velho.
Nada disto envelheceu...

A. Estebanez

CANÇÃO PARA VOCÊ VOLTAR...


CANÇÃO PARA VOCÊ VOLTAR...

Como águia nas vertentes do infinito
você não pode mais perder-se assim
como o corpo da alma sem o espírito
como flor que se ausenta do jardim...

Você não deve nunca mais perder-se
de mim enquanto não for hora ainda...
Enquanto for tão cedo e o amanhecer
é sonho que desperta, mas não finda.

Talvez deva supor que sua ausência
seja a parte acordada de meu sono...
E a minha ensolarada inconsciência
seja a linda manhã do ainda outono...

Por isso não se ausente mais de mim
que sempre fiz você dormir de amor!
Como as crinas douradas do alecrim
que ao pôr-do-sol hospeda a sua flor...

Você não pode mais deixar-se alada
ao tempo como o vento sobre o mar...
Você tem que voltar tão despertada
como um sonho cansado de sonhar...

Como águia que regressa do infinito...
Enfim! É justo amar o amar-se assim...
Como alma que retoma seu espírito...
Como flor que retorna ao seu jardim...

A. Estebanez

DEUS GUARDA MINHA CANÇÃO



Eu existo porque canto.
Nada sei, senão cantar...
Encanto por desencanto
ou canto para encantar.

Tenho a alma das violas
nas danças de desfastio
e beijos de castanholas
nas horas de meu estio...

É acalanto quando calo
como flauta sussurrada
no canto mudo do galo
que perdeu a alvorada...

É mudez do vasto espanto
de ver tanto amanhecer...
Não é mágoa nem é pranto
mas o encanto de nascer.

Eu trago memórias fartas
das almas dos bandolins
das guitarras e das harpas
dos corais dos querubins...

Não é magia nem fado
o louvor que me conduz
pelas veredas do prado
dos rebanhos de Jesus...

A. Estebanez

(Obra inédita dedicada á Pra Zenet Garcia Pereira
– que durante esse meu primeiro ano de literatura
virtual tem sido a guardiã desta canção de louvor)

PALAVRA


PALAVRA
(Genaura Tormin)

Palavra,
Liberdade sonora,
Farol que alumia
A essência da vida.
Alumbra a fantasia,
Acalenta a alma,
Voeja paraísos intocáveis.

Ingênua, despida,
Enfeita-se de sonhos,
De magia e lógica.
Em voos asados por signos,
mostra-se cativa ou soberba.
Em roupagens lúdicas,
Provoca sorrisos,
Alinda o amor.
Pode lanhar o coração,
Vestida pela dor.

Nave dos sentidos,
Transporta a exultação do belo,
A contemplação do silêncio inaudível,
Encapelado por dores guardadas
Nas águas revoltas do existir.

Palavra,
Canto órfico que se transmuda,
Esgueira-se em harmonia
Pelo cosmo, pelo infinito...

E o amor se faz
Nos eitos de palavras soltas,
Regadas por lágrimas,
Plantadas ao açoite do vento,
À luz primeira de um amanhecer risonho.

ÚLTIMA ROSA DE DELOS



Conheço as flores como a rosa o espinho
o trigo ao pão do amor que me alimenta,
em meus vinhedos sou do fruto ao vinho
a abundância do amor que te contempla.

És o princípio e o fim de um só caminho
no mistério do encanto que me inventa:
no horizonte do olhar de um passarinho
esplende a luz do amor que te contenta.

Não mais pressentimentos de distâncias
nem mais esse pesar das circunstâncias
de almas gêmeas em mundos paralelos.

Se um tempo aqui nascemos e vivemos
e aqui morremos, sim!... e morreremos
como as rosas de pedra, mas de Delos!


Afonso Estebanez
(Nov.07.2008)